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domingo, 21 de janeiro de 2024

Fábio Siqueira do Amaral (Trovas Dispersas)


Ao que vive de promessa,
ouça bem o que lhe opino:
– Pense mais no que professa
e fabrique seu destino.
= = = = = = = = = 

Aos meus caros notifico,
com claros sons de clarim,
toda a paz que lhes dedico
vem do céu, não vem de mim!
= = = = = = = = = 

Com toda esta minha idade
aventurei-me no amor
e a desgraça da saudade
não me fez nenhum favor…
= = = = = = = = = 

Contemplo meu sol de outono
e as borrascas deste mar;
confesso o triste abandono
num amargo lamentar…
= = = = = = = = = 

Da antiga infância... que sinto?
Juventude?  Não provei...
Se falo em saudade... eu minto!
Lembro só... quanto chorei...
= = = = = = = = = 

De alegria singular
governante tem a glória
persistente e popular
quando faz da paz, história...
= = = = = = = = = 

De tornar ao meu passado,
sonho até com mais vontade;
mas do amar sem ser amado
é impossível ter saudade.
= = = = = = = = = 

Deus dos céus, oh! sol fulgente,
santa paz da eternidade;
dá-nos esse grão presente:
a luz da fraternidade!
= = = = = = = = = 

E do amor tanto se fala,
se escreve e nada se sente;
esta trova não se cala
e haverá quem a desmente?!
= = = = = = = = = 

Enrugado e impopular
como fole de sanfona,
corre o risco de ficar
quem o amor só coleciona.
= = = = = = = = = 

Gostaria de esquecer...
Ser-lhe igual... Nada sentir...
Mas... Qual! Bem sei que vou ter 
a saudade a me oprimir!
= = = = = = = = = 

Há nos céus menos estrelas
do que os versos que eu cantei;
nosso amor vai surpreendê-las
com os beijos que lhe dei...
= = = = = = = = = 

Há quem culpe seu destino
pelas desgraças que enfrenta,
mas esquece o desatino
da má vida que fomenta!
= = = = = = = = = 

Lancei sementes de paz
para ver da guerra o fim
e o triunfo que perfaz
toda fé que existe em mim...
= = = = = = = = = 

Livros teus, abraça forte
se cultura queres ter;
coisas fúteis, dá-lhes corte
deixa de moleque ser!
= = = = = = = = = 

Melancólica estação
das cores esmaecidas
gera alguma inspiração
no outono de nossas vidas…
= = = = = = = = = 

O destino pode ser 
a desculpa do fracasso 
daquele que julga ter
uma pedra em cada passo.
= = = = = = = = = 

O sincero sentimento
faz cantar nova canção,
sopra à vida o vivo alento,
quando o amor cala a razão.
= = = = = = = = = 

O vento derruba as folhas,
fez o tapete no chão
do outono que, sem escolhas,
pôs rimas numa canção…
= = = = = = = = = 

Quem a paz deseja ter,
honra e valor conquistar,
procura não se envolver
no ato que o mal lhe insuflar!
= = = = = = = = = 

“Queres paz? Prepara a guerra!”
Funesto lema romano!
Faze assim e... pobre Terra...
e... do que é chamado humano!
= = = = = = = = = 

Sem meus pais e irmãos aqui;
e os amigos que partiram,
por saudade traduzi
tanta dor que me impingiram...
= = = = = = = = = 

Sempre foi o meu destino
ser calado e assim sofrer;
nem a fé, num descortino,
fez-me a vida bendizer...
= = = = = = = = = 

Somos todos criaturas
pelo amor de Deus gerados;
Ele nos vê das alturas
e nos faz apaixonados...
= = = = = = = = = 

Temos o exemplo no mundo,
 – livre de qualquer domínio –
da paz, de um jeito profundo,
dos seres sem raciocínio!
= = = = = = = = = 

Todo afeto se alivia
no cantar ou no sofrer
e a saudade, em sintonia,
faz-nos trovas escrever...
= = = = = = = = = 

Um amor ou outro eu tive...
Conto-os nos dedos da mão;
me foram joias de ourives
que perdi por precaução.
= = = = = = = = = 
Fonte:
https://www.asesbp.com.br/TROVADORES/indice%20trovadores.html

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Fabiano Wanderley (RN)


1
Ao homem, na sua essência,
diante a sua fraqueza,
deu-lhe Deus com sapiência,
por amparo, a fortaleza!
2
Ao ver, a morte estampada,
na face de uma criança,
vê-se, ali, riste, ceifada,
para sempre, uma esperança,
3
Até mesmo o passarinho,
deixa a seca, a região,
para formar novo ninho,
onde houver fartura em grão.
4
Canta, canta, ó menestrel,
ante a lua a te acolher,
mais um tango de Gardel
que nos faz enternecer…
5
Com frases que vêm do peito,
meu coração se declara
ao verso, mais que perfeito:
— A trova, esta joia rara!
6
Como que por acalanto,
descerra a noite, o seu véu.
Cobre a terra com seu manto,
expondo estrelas no céu!
7
Com teu verso, solto ao vento,
levaste, a trova, aos altares,
com poesia e talento,
Ó Sebastião Soares!
8
Confirmando as suas lendas,
por capricho, o velho mar,
cobre as areias de rendas,
quando a praia vem beijar...
9
Desista, irmão, dessa guerra,
abrace a paz benfazeja,
pois a vida, enfim, se encerra,
onde o combate, sobeja.
10
Eis a serra majestosa!
Na natureza, um painel...
— Imponente, imperiosa,
altiva, buscando o céu!
11
Ela vem com seu achaque,
nossa paz, ela degreda,
a sogra é que nem conhaque:
- Aos poucos, ela embebeda!
12
Em noite de lua cheia,
envolto a tanto esplendor,
um poeta galhardeia,
versando trovas de amor.
13
Em uma folha vazia,
ponho em versos, sentimentos:
- Meu prazer, minha alegria,
minhas dores, meus tormentos...
14
Nada detém tanto encanto,
nem tanta essência de amor,
qual o feito sacrossanto,
do desabrochar da flor!
15
Não podia acontecer!
Do verbo, qual seu conceito?
Diz Juquinha, sem temer:
- Preservativo imperfeito!
16
Na roça, o suor do rosto,
mostra todo o ardor da lida,
e nesse cansaço exposto:
- Uma esperança de vida!
17
No grande palco da vida,
desse enredo tão atroz,
em cada cena exibida,
há sempre um pouco de nós.
18
No plenilúnio, na noite,
do aconchego dos seus ninhos,
vem a lua como açoite,
aclarar, os passarinhos!
19
No voo, a linda graúna,
com graça e simplicidade,
entoa, por sobre a duna,
seu canto, de liberdade.
20
O bombeiro, seu Clemente,
no boteco, faz seu jogo,
já se apaga, na aguardente,
combatendo o próprio fogol
21
O jardim perdeu as cores,
todo o belo feneceu;
as rosas, sem seus olores,
tal qual o destino meu…
22
Pelos caminhos da lida,
quantos castelos ergui...
- E esses sonhos, pela vida,
com trabalho, os consegui!
23
Por ser um real tormento,
indefinível ao pintor
e um sublime sentimento:
– A saudade não tem cor!
24
Por volúpia ou por feitiço,
todo amor, se faz mister,
no encantamento e no viço,
dos braços de uma mulher.
25
Quando a lua prateada,
resplandece na amplidão,
faz da trova uma morada,
em forma de inspiração.
26
Quando a queimada ameaça,
a vida, sem complacência,
a mata, pela fumaça,
vai aos céus, pedir clemência.
27
Quando a tarde prenuncia,
revoam os passarinhos
e levam toda a magia,
para o abrigo de seus ninhos.
28
Quando o céu, na lua cheia,
expõe os encantos seus,
a serra se galhardeia,
por estar mais junto a Deus.
29
Quando no espelho me exponho,
a velhice me valida,
com marcas de um lindo sonho
e gratidão pela vida...
30
Saudade é dor que se sente,
por quem, por qual, ou razão.
Um vazio que há na gente:
— Mistério de um coração!...
31
Se, a tua noiva, não bebe,
com ela, nunca te cases,
se não bebe, ela percebe,
o que fazes e não fazes.
32
Se a vida traz cicatrizes
por algo que nos aporte,
pelos meus dias felizes,
agradeço a Deus, a sorte.
33
Se os bons ventos são bem vindos,
por trazer-nos sempre o bem,
que levem, após advindos,
os nossos males, também...
34
Só a idade evidencia,
os rumos da nossa essência,
nos dando a sabedoria,
consolidando a existência.
35
Tendo a trova como canto,
o poeta em oração,
põe, em versos, todo encanto,
da mais sublime expressão!
36
Tens meiguice e sedução,
tens, oh Mãe, tanta bondade,
és de Deus, a criação,
que concebe, a humanidade.

domingo, 30 de junho de 2019

Ferdinando Fernandes (Portugal)

-
A boa fada da sorte
Te pôs um dia a meu lado;
Dizendo que só a morte,
Faz este amor acabado.

A chorar vivi cantando
Cantando vivo a chorar,
Se eu a cantar vou chorando
A chorar quero cantar…

Alma de corpo franzino
Anjo ridente dos céus,
Sofres já de pequenino
Como sofrera teu Deus.

Andorinha que partiste
Pra terras de mais calor;
Leva minha alma triste,
Que anda à procura de amor.

Ao ver-te bailar contente
Com um filho no braçado,
Eu recordo docemente
Loucuras de ano passado…

Arranjei-te sem saber
Pensando a sorte encontrar;
Hoje mesmo sem te ver,
Fico cheio de te olhar.

A saudade é lenço branco
Que nos chama sem parar,
O sentimento mais franco
Que muito diz sem falar.

A sonhar juntos, Maria
Fizemos o arraial,
E nos folguedos do dia
Fizemos fogueira igual.

Caminhemos mão em mão
Fulcro de amor e alegria;
Só assim no coração,
Há Natal em cada dia!!

Cobrir crianças despidas
Tornar o mundo igual,
Cativar almas perdidas
Seria o meu ideal…

Conta lá os teus segredos
Loucuras… horas a fio;
A água sai dos rochedos,
E vai cantando até ao rio.

Cravos vermelhos à porta
Mangericos na sacada,
Mas se a fogueira está morta
Que vale a cinza apagada.

Criança, anjo sagrado
Sem rua sem lar nem pais,
Serve pro homem malvado
Em seus fins materiais.

De pequeno desconheço
Maldades que a vida tem;
Agora que a conheço,
Vivo nela com desdém.

Deves ouvir meu conselho
Quando te julgas um santo;
Olha-te bem ao espelho,
E depois despe o teu manto.

Dizes ser rico e nobre…
Esquece lá a fantasia,
Pois a fogueira do pobre
Dá mais calor e alegria.

Dizes te julgas perdida
Pra mim tens tanto valor,
Pois quem aquece outra vida
Tem que ter muito calor!

Em cada dia que passa
Mais vergonha tenho eu,
De ser fruto desta massa
Que em mim encarneceu.

É melhor comer o pão
Embora duro que seja,
Que ser na vida ladrão
E deitar fora o que sobeja.

Em quatro linhas ficou
Tantos sonhos e magias;
Que no teu peito moldou,
Aquilo que não sabias…

Esse beijo ainda gritante
Em quatro lábios ficado;
Ainda lembra constante,
As loucuras do passado…

Esta dor que atormenta
Este meu peito em saudade.
É choro que se lamenta
Dos tempos da mocidade…

Eu nascera só pra ti
Na vida que me foi dada!
Fogueira que eu revivi,
Com cinza quase apagada.

Eu vivi triste na vida
Destino que Deus me deu,
Foi de uma alma sentida
Que a alegria nasceu!

Foi nas urzes do caminho
Que eu vira o trevo feliz,
Não o quis, fiquei sozinho
A sorte só eu a fiz…

Fui à fonte para te ver
E quando lá te encontrei,
Depois de tanto beber
Com outra sede fiquei…

Fui primavera ridente
E hoje que não sou nada;
Sou pobre que ri contente,
Na vida que me foi dada.

Hoje estás abandonada
Só por loucuras de amor.
Mas a rosa por cheirada,
Nunca perde o seu valor!

Já basta o que tem por sina
A vida do pobrezinho…
O homem ainda lhe ensina
A ser trapo do caminho!

Lágrima caída no rosto
Dos teus olhos cor do mar;
Lembra a vida em sol posto,
Saudade sempre a chamar…

Mentiras que o outro diz
Não acredites amor;
Pois planta sem raíz,
Não alimenta a flor.

Meu amor de mim tem dó
Sou coração enjeitado…
Por fraca que seja a mó
Dá sempre o milho ralado.

Meu amor olha pra mim
Preciso do teu sorrir,
Como a rosa no jardim
Do sol para florir.

Morena que vais pra fonte
De cantarinha na mão;
Choras tristezas pelo monte,
Das saudades que lá vão.

Nada há que determine
Os traços que a vida tem;
Nem há sol que ilumine,
O negrume do desdém.

Na farsa da ilusão
Tudo anseias com fervor;
Podes comprar a razão
Mas não compras o amor.

Não dês esmola por vaidade
Inda que seja um vintém,
Podes ferir sem maldade
Aquele que nada tem…

Não escrevo para entreter
Mas escrevendo a dor acalma.
Nunca se pode esconder,
Tristezas que vem da alma.

Não me olhes descontente
Pelos meus loucos folguedos;
O rio corre contente,
Sem dar contas aos rochedos.

Não penses que não te amo
Porque te não presenteio,
Pois o amor é um ramo
Que vive no nosso meio.

Não posso gostar de alguém
Só porque gosta de mim.
A primavera não vem
Só porque existe um jardim.

Não procures viver só
Faz do pobre companheiro,
Pois que seria da mó
Se não tivesse o moleiro…

Não te julgues desgraçada
Se a má sorte te persegue;
Existe pior calçada,
Que aquela que agente segue.

Não venhas flores um dia
À minha campa depôr,
Pois tudo foi fantasia
Que me falava de Amor.

Nessa noite de ilusão
A dançar te conheci,
E ao sentir teu coração
Logo fogueira acendi.

Nesta dor feita alegria
Algo de estranho acontece,
Ante meus olhos é dia
Dentro em meu peito anoitece.

No altar desse teu peito
É minha prisão de amor,
É capelinha que enfeito
Com somente uma flor.

No choro do meu olhar
Há risos em gargalhadas;
É a saudade a mostrar,
As saudosas madrugadas.

No mundo vivi sonhando
E a sonhar envelheci,
E a sonhar vou ficando
Pequeno como nasci.

No parlamento da vida
É só mísera ilusão…
Depois da lista escolhida,
Ainda é maior o ladrão!

No parlamento da vida
Todos querem mandar mais…
Pois a seara perdida,
Faz tentar mais os pardais.

No teu regaço dormi…
Como em cama de jasmim
Foi no teu sonho que eu vi,
O quanto gostas de mim!

Nunca odeies meu amigo
Mesmo que tenhas razão;
Pois não é só o mendigo,
Que necessita de pão.

Nunca sonhei ilusões
Riquezas…luxos sem fim;
Pois os mais belos brasões,
São os teus olhos pra mim.

Nunca te esqueço meu bem
Como mais terna donzela.
Primavera vai e vem,
E a rosa espera por ela!

Nunca te julgues vencida
És um anjo aos olhos meus.
Mesmo uma filha perdida,
É sempre filha de Deus.

Ó belo trevo da sorte
Quem foi que te semeou?…
Talvez alma de má porte
E nunca mais te encontrou.

O choro que existe em mim
Nem sempre é feito de dor,
Nem sempre a vida tem fim
Quando acaba um grande amor.

O homem tanto promete
E nunca cumpre o que diz,
E dos erros que comete
Não quer ser ele o juiz.

Olhei pra ti com desejo
E com desejo fiquei;
Pois nesse rosto que vejo,
Está o sonho que sonhei.

Olhei-te de olhos fechados
De olhos abertos fiquei;
Nesses teus lábios rosados,
Ficou o que desejei.

Olho na vida o passante
Meu irmão de cada hora,
Meu companheiro errante
Ferido com a mesma espora.

O manjerico velhinho
Outra vez reverdeceu,
Mas está morto o teu carinho
Esse pra sempre morreu.

Ó meu amor, teu dançar
Tem graça tem alegria,
Pode a roda cheia estar
Mas sem ti está vazia.

O pobre que nada tem
Que na vida não tem norte,
Não dá contas a ninguém
Quando lhe chegar a morte.

O poeta é mensageiro
Na luta pela igualdade…
Luta sempre companheiro
Em abraço de amizade.

Ó rio de água serena
Que vais chorando pro mar;
Ao chorares a tua pena,
Chora também meu penar.

O trevo nasce no prado
Sem ninguém o semear,
A sorte não é mercado
Que se consiga comprar.

Porque nasci afinal…
Neste monturo sem vida,
Só vi choros, só vi mal
Só vi peitos sem guarida.

Por ti chorei, e afinal
Meu pranto nada valeu,
Que importa um amor leal
Se outro amor nunca nasceu.

Possuir a felicidade
É um sonho tão profundo…
Que até penso com saudade
Que não existe no mundo.

Primavera é sempre igual
Todos anos traz flores,
Mas a vida tem final
Leva consigo os amores.

Proibir a mendicidade…
Faz o homem sem pensar,
Mas não proíbe a caridade
Nem a vontade de dar.

Prometes-te e não cumpris-te
Sofre alguém esse teu porte;
O coração que feris-te,
Te pede contas na morte.

Quando eu um dia me for…
Não me chores, minha querida;
Pois quem morre por amor
Fica sempre nesta vida!

Quem me dera ser a lua
Num vaivém sempre a rodar,
Iluminar tua rua…
E no teu quarto espreitar.

Quero levar a saudade
Quando desta vida for…
É sonho da mocidade
Que sempre falou de amor.

Repara bem ao dançares
Que não te calquem os pés,
E se de par tu trocares
Podem te dar pontapés.

Risonhos dias vivi
Na vida que me foi dada,
Mas hoje já tudo esqueci
Desse sonho que foi nada.

Rosa branca que venero
Neste jardim de saudade;
És o amor mais sincero,
Que ficou da mocidade.

Se a desgraça fosse pão
Que a todos fome mata-se,
Eu não teria um irmão
Que na vida mendigasse.

Se a fogueira se apagou
Não te importes meu amor,
Outro fogo começou
Que dá muito mais calor.

Se a lei tudo castiga
Eu não sei porque razão…
Ou tudo é canto ou cantiga
Pra todos comer o pão.

Se algo sofri não sei quanto
E não sei quando nasci…
Pois tudo hoje é só pranto
Da mentira em que vivi.

Se a saudade é letra morta
Não o posso afirmar…
Só sei que me bate à porta
Mesmo sem eu a chamar!

Se a sorte nasce no prado
Sem ninguém a semear;
Triste sina este meu fado
Não consigo encontrar.

Se na vida não fui nada
Nada me deram pra ser,
Nasci de uma vida errada
Culpa teve o meu nascer.

Se o Sol tudo aquece
Só o comparo então;
Ao amor que se merece,
E aquece o coração.

Ser bem pobre e não ter nada
É dom que Deus nos legou;
Quando a vida terminada,
Vai cantar o que chorou.

Sonhando pela vida afora
Saudades feitas por mim…
Mas só me apercebo agora
Que este sonho está no fim.

Sonhei contigo, e a sonhar
Corri distâncias sem fim…
Pois só sei que ao acordar,
Estavas pertinho de mim.

Sou filho que por desgraça
Nada tenho pra comer,
Se ás vezes riu por graça
Sou hipócrita sem querer.

Tempo que passa é saudade
De algo que fica chorando.
São sonhos da mocidade
Que ficam por nós chamando.

Tudo lembro com saudade
Dos tempos que já lá vão,
Mas só vejo a bondade
Distante do coração.

Tu me deste a luz da alma
De um sonho quase acabado;
Hoje te oferto a vida calma,
Que abraçamos lado a lado.

Um português a cantar
Faz de uma trova canção,
Depois do verde provar
Canta por uma Nação.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Frazão Teixeira (1902 - ????)


1
Aliança de ouro – esperança
de horas risonhas e puras,
se une o casal na bonança
une-o também nas agruras.
2
A minha vida era triste,
da solidão era presa,
mas tu chegaste e sorriste,
e lá se foi a tristeza.
3
A Morte nos leva à porta
do céu, quando Deus nos chama;
se somos maus, não importa,
– no céu entrará quem ama.
4
A razão tem seus ditames
que o coração não compreende;
ela te diz que não ames,
e o coração não atende.
5
A sorte deu-me um tesouro
de inestimável valor;
não foi nem prata, nem ouro,
apenas foi teu amor.
6
A trova é manto que teço
com fios de desenganos;
depois com ela eu aqueço
minha alma ao passar dos anos.
7
A trova é um bem que se almeja
em quatro versos oculto,
mas, para mim, talvez seja
um sonho morto insepulto.
8
Cultivo este gesto lindo
de ser útil por prazer,
pois penso que dar sorrindo
é melhor que receber.
9
É grande espelho este mundo:
– se ris ele também ri,
se odeias, ódio profundo
verás em torno de ti.
10
Eu hoje vivo cantando,
feliz da vida, porque
eu sinto que estou amando,
e meu amor é você.
11
Há ternura em teu olhar
e calor nos lábios teus,
quando vens depositar
teu beijo nos lábios meus.
12
Não espere em alvoroço
para não se lamentar;
“a esperança é bom almoço
mas também um mau jantar.”
13
Não lamente os dissabores;
cicatrizada a ferida,
sempre se aprende nas dores
dos maus embates da vida.
14
Não se faz trova, ela existe
já feita como o carvão;
ser, pois, trovador consiste
em abrir o coração.
15
No outono da vida, o amor,
entre as dádivas divinas,
parece ser como a flor
nascida junto às ruínas.
16
Nuvens são trovas ao léu,
que nos primeiros albores
Deus coloriu lá no céu
em tons de todas as cores.
17
O barco se despedindo
singra no rumo perfeito,
e esta saudade surgindo
também singra no meu peito.
18
Ponha amor no coração
e nos lábios um sorriso;
para ser feliz, então
nada mais será preciso.
19
Tal como uma flor colhida,
cujo aroma nos invade,
emana da despedida
o perfume da saudade.
20
Tudo que nos acontece
uma causa deve ter;
amor enfim me parece
a causa de eu te querer.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Filemon Francisco Martins


1
A distância é que nos mata
pois logo vem a saudade;
saudade – presença ingrata
da antiga felicidade.
2
A felicidade é um sonho,
- por que deixar pra depois?
O amor é sempre risonho
na vida vivida a dois.
 3 
Aquele beijo de Judas
no cenário da traição,
revela que as trevas mudas
podem trair nosso irmão.
4
Cai a chuva na vidraça
e eu fico triste, porque
não há beleza nem graça
nesta casa sem você.
5
Céu azul, todo estrelado,
sorrindo, ao clarão da lua,
e o meu peito, apaixonado,
a chorar a ausência tua.
6
Ciúme é cuidado e zelo
que temos do nosso bem,
pois não queremos perdê-lo
para os olhos de outro alguém.
7
Como é bom viver à toa
e sempre fazer o bem,
que a Natureza abençoa
quem vive em Itanhaém.
8
Criança és flor, és bonança
espargindo luz e amor,
porque trazes a esperança
de um futuro promissor.
9
Criança, teu riso é tudo,
traz um brilhante porvir,
se amparada com estudo,
o mundo volta a sorrir.
10
“Das coisas belas da vida”
que colhi, em profusão,
eis a mais nobre e querida:
em cada TROVA um irmão!
11
Da vida não quero a glória
que tanto engana e seduz.
Prefiro não ter história
a renunciar minha cruz.
12
De manhã, sinto o perfume
das flores no meu jardim,
e um beija-flor – que ciúme,
chegou bem antes de mim.
13
Do fruto vem a esperança,
depois da bonita flor.
Assim também a criança,
depois de um florido amor.
14
É Natal! Nossa Esperança
de ser bom, fazer o bem,
nasce com aquela criança
na manjedoura em Belém.
15
Eu sinto nos braços teus,
um carinho, um aconchego,
e me torno um semideus
vivendo em paz, no sossego.
16
Falando de amor, Maria,
que saudades sinto agora
daquela doce alegria
que em teus olhos vi outrora.
17
Gosto da vida pacata,
homens simples dos sertões,
pois vejo usando gravata
por aqui muitos ladrões.
18
Meu peito canta, sorrindo,
ao ver o clarão do dia,
enquanto a noite fugindo
deixa rastros de alegria.
19
Minha mãe – como eu quisera
do meu amor dar-te prova,
e o meu carinho – pudera
enviar-te numa TROVA.
20
Não julgue pela aparência,
não condene sem saber;
às vezes com paciência
algo bom temos de ver.
21
Nenhum poema é mais belo
e inspira tanta esperança
do que um sorriso singelo
no rosto de uma criança.
22
No livro da NATUREZA
as lições são sem iguais.
Tenho, por isto, certeza
que é onde se aprende mais.
23
No meu balaio carrego
sonhos de amor e venturas,
mas muitos sonhos, não nego,
se tornaram desventuras.
24
No teu sorriso, criança,
vejo o mais belo perfil,
porque tu és a esperança
do futuro do Brasil.
25
Quantas noites, meu amor,
olhando, no céu, a lua,
eu me sinto um trovador
pensando na imagem tua.
26
Quem conversa sem saber,
querendo ser sabichão,
cuide, que vai receber
severa repreensão.
27
Que o teu futuro, criança,
seja de luz e esplendor,
vislumbre de confiança
no mundo do desamor.
28
Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter, na vida,
um coração de MULHER!
29
Sinto um perfume na rua
fazendo a gente feliz,
enquanto a noite flutua
nas flores de bogaris.
30
“Sorriria de feliz”
e o mundo teria paz,
se o coração que maldiz
soubesse perdoar mais.
31
Tenho certeza que a trova
– poema feito de amor -
é um sonho que se renova
na vida de um trovador.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Francisco José Pessoa (Fortaleza/CE, 1949 - 2020)

1
A cobiça sendo um vício
e a renúncia salutar,
nosso menor sacrifício
é saber renunciar.
2
Aconteça o que aconteça
eu nunca vou desistir…
por trás da nuvem espessa,
tem sempre um sol a sorrir!
3
À minha mulher confesso:
- Na atual encarnação,
para apressar teu progresso
sou a tua expiação!
4
Aquele pé de carvalho
plantado em minha lembrança,
cintila gotas de orvalho
quando me vejo criança.
5
À tardinha, todo dia,
assisto o chegar do trem,
esperando por Maria
só que Maria não vem.
6
A poça d’água na rua
de repente se prateia…
espelho tosco da lua
em noite de lua cheia.
7
As estrelas não fenecem
perante à luz que encandeia,
mas docemente adormecem
se a noite é de lua cheia.
8
De forma vil, ilusória,
o falaz aos ventos, berra,
cantando sua vitória
sem ter terminado a guerra!
9
Eis o grande desafio
para quem se diz cristão:
ter que dizer, renuncio,
em favor de um outro irmão!
10
É quando a noite se enluta
envolta em intenso véu,
que a estrelinha diminuta
empresta luz para o céu.
11
 Esplendor tens, de tal monta,
quando passeias na praça,
que a lua se esconde, tonta,
atrás da nuvem que passa.
12
Esta vidinha da gente
tal a serra é mesmo assim…
ora subida ou vertente
num sobe e desce sem fim.
13
“Faça-se a luz”! e ao fazê-la
com muito amor e carinho,
Deus colocou uma estrela
a clarear meu caminho.
14
Feliz da vida se logra
o Zeca exibe o caneco,
que ele trocou pela sogra
na feira de cacareco.
15
Homem com muitos trejeitos,
mulher com muita feiúra
para mim são dois defeitos
que nem com reza tem cura!
16
Já que não posso mantê-las
ao alcance do meu braço,
eu canto minhas estrelas
em cada verso que faço.
17
Mãe é palavra seleta
por si só uma obra prima,
pois mesmo o maior poeta
procura e não acha rima!
18
Mesmo que lhe desagrade,
dentre os sabores prefira
o amargo de uma verdade
ao doce de uma mentira.
19
Meus sonhos por si navegam
levando-me ao transcendente,
por mil estradas enxergam
bem mais do que enxerga a gente.
20
Minha mãe, quanta lembrança,
quem me dera tal jaez…
eu voltar a ser criança
começar tudo outra vez.
21
Minhas lágrimas vertidas
por entre dobras de rugas,
são saudades incontidas
do meu passado... são fugas!
22
Na avenida do fracasso
onde a humanidade avança,
em cada esquina que passo
eu planto um pé de esperança.
23
Não há placa de chegada
na minha estrada da vida…
faço de cada parada
novo ponto de partida.
24
Na solidão com frequência
escutamos uma voz…
deve ser nossa consciência
querendo falar por nós!
25
 Nas veredas tortuosas
dessa vida em desalinhos,
nas retas eu colho as rosas
nas curvas tiro os espinhos.
26
Noel Rosa, quem diria,
sem cigarro e sem chapéu,
chegou só, sem parceria,
pra fazer samba no céu.
27
Noitinha volto da roça
e Rosa com seu pudor,
apaga a luz da palhoça
pra gente fazer amor.
28
Nos quatro dias de Momo
ante tanta bebedeira,
eu estarei, não sei como,
quando chegar quarta-feira!
29
Nossas faces, pergaminho,
rastro do tempo que, algoz,
não apagou o carinho
que ainda existe entre nós!
30
Nossa vida não tem prazo
e tal o dia, é assim:
um surgimento, um ocaso,
que por acaso é sem fim!
31
Nos trigais do sentimento
que contra o vento eu transponho,
cozi o pão sem fermento
no forno quente de um sonho.
32
O amor seria fecundo
como tal se espalharia,
se toda mãe que há no mundo
tivesse um nome…Maria!
33
O intenso amor que nos une
e nos completa, querida,
faz a nossa vida imune
às incertezas da vida.
34
O inverno se me avizinha
e, no espelho, a contragosto,
vejo que o tempo caminha
deixando o rastro em meu rosto.
35
O meu amor quis safar-se
de mim, então me escondi;
de rosa era seu disfarce…
fui, sorrateiro, e a colhi!
36
O nosso amor passageiro
tal orvalho evaporou…
nasceu e morreu ligeiro,
que nem saudade deixou.
37
 O pó que emana do giz
e o salário sem valor,
tornam bem mais infeliz
a vida do professor!
38
O sentimento de culpa
se esconde na consciencia
de quem fere e se desculpa
a suplicar inocência.
39
Os gritos de liberdade
abafados por censuras,
viram ecos de piedade
nos porões das ditaduras.
40
O sol, gigante centelha,
torna-se mais colossal,
quando nascendo se espelha
nas águas do pantanal.
41
Por mais que em ti não pensasse
uma lágrima escorria,
irrigando a minha face,
onde eu plantei nostalgia.
42
Por sofrer tantos açoites
nos meus momentos tristonhos,
pus redoma em minhas noites
para prender-te em meus sonhos
43
Quando o sol arquiva o dia
e o expediente se encerra,
ecoa a Ave-Maria
nos escritórios da serra!
44
Quantos banquetes regados
a vinho, trufa e salmão…
quantos irmãos relegados
sem água, sem luz, sem pão!
45
Quem diz ter brilho e alardeia
desdenhando o semelhante,
esquece que a lua cheia
tem seus dias de minguante!
46
Quem faz da vida um disfarce
e finge viver a esmo,
de tudo pode safar-se
mas não engana a si mesmo!
47
 Quem não quer vencer a estrada
como faz o peregrino,
dobra sempre a esquina errada
na contramão do destino.
48
Saudade é o tempo guardado
dentro do peito da gente...
Nó que se dá, no passado,
e se desfaz no presente.
49
Sem usar pincel ou tinta
apenas com seu clarão,
a lua cheia repinta
as veredas do sertão.
50
Soluça vazia, a rede,
o armador emudeceu,
marcas de pé, na parede,
choram tanto quanto eu!…
51
Subo às nuvens… fantasia…
e para o amor espalhar,
solto minha poesia
com rimas soltas ao ar.
52
Todo indivíduo que é tolo
mas que de sábio se arvora,
é tal um pão sem miolo…
só tem a casca por fora!
53
Vai estudante, buscar
conhecimento fecundo
pois, és a pedra angular
na construção do teu mundo!

Lairton Trovão de Andrade (Descontraindo em versos)

01. Destrua a melancolia, pois a vida se renova! Contra a tristeza, Maria, beba chazinho de trova! 02. O plagiário é caricato que no mundo s...