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domingo, 18 de fevereiro de 2024

Licínio Antônio de Andrade (Canteiro de Trovas)

 

A água que desce a colina
entre pedras a rolar,
mesmo pura e cristalina,
não mata a sede de amar.
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A brisa que afaga a terra
soprou nos ouvidos meus:
"paz não é a ausência da guerra,
paz é a presença de Deus..."
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A brisa que passa leve
sobre a lagoa a soprar
parece, num sonho breve,
a voz de um anjo a cantar.
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As ondas se desfazendo
na praia, na maré cheia,
parecem sonhos tecendo
toalhas rendadas na areia.
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A vida não tem sentido
se vivida sem amor,
é qual o grão esquecido
na bolsa do lavrador.
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Caravelas aportando
em solo rico e gentil,
estava ali, começando,
toda a história do Brasil.
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Caravelas portuguesas
com o símbolo da cruz,
descobriram as belezas
de um Brasil que nos seduz.
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De suas mãos recebi
carícias nunca sonhadas
e eternas glórias vivi
nas insones madrugadas.
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Disse-me a cigana um dia,
lendo a sorte em minha mão:
– Vejo paz, vejo alegria,
muito amor no coração.
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Entre as Marias que amei
na história dos meus amores,
só uma lembrança guardei:
– A da Maria das Dores.
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Hoje, no outono da vida,
não tenho mais ilusão,
sou qual a folha caída
que o vento arrasta no chão.
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Não desdenhe dos sem nada
se a sorte o favorecer,
quem sobe ao alto da escada,
um dia pode descer.
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Não pise na flor que medra
nem zombe da sua graça,
pois, aquele que hoje é pedra,
pode, amanhã, ser vidraça.
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Na velha igreja da Cruz
onde os sonhos vão rezar,
a Santa esparge mais luz
 que as velas brancas no altar.
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Nem sempre a luz da vitória
é de quem vence a batalha,
Jesus subiu para a glória
tendo uma cruz por mortalha.
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Nos lençóis em desalinho
que marcaram nosso amor,
hoje adormeço sozinho
na angústia da minha dor.
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Nos seus cachinhos, criança,
o sol gosta de brincar
e, com raios de esperança
pôs verde no seu olhar.
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Nosso amor que começou
brisa morna de ternura,
cresceu e se transformou
num vendaval de loucura.
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O volume é tão gritante
na barriga do Menezes,
que até lembra uma gestante
já beirando os nove meses.
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Passa a "Maria Fumaça"
com seu apito pungente,
segue nos trilhos, com graça,
levando os sonhos da gente.
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Pouco importa se as capelas
não tenham luxos reais,
pois o Deus que habita nelas,
é o mesmo das catedrais.
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Quando a princesa assinou
a Lei da Libertação,
o Brasil se emocionou
com o fim da escravidão.
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Quando Deus criou o mundo,
para completar a lida,
no seu gesto mais fecundo
fez o milagre da vida.
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Quanta saudade reporta
um lenço branco a acenar,
é angústia que bate à porta
e a solidão manda entrar.
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Que triste seria o mundo
sem sonhos, sem poesias
e, de um vazio profundo
sem a graça das Marias!
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Se a sorte bater-lhe à porta
mande depressa ela entrar;
depois feche, pouco importa
mas, não a deixe escapar.
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Se a vida parece vã
quando a sorte vai embora,
lembre-se: em cada manhã
resplende uma nova aurora.
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Se é por vontade divina,
a boa semente medra
e, por milagre germina
em qualquer fenda de pedra!
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Segue o barco da ilusão
singrando o mar da bonança,
no leme, meu coração,
e o seu destino: a esperança.
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Sinfonia é o mar quebrando
em rendas brancas na areia,
é o vento que vem cantando
nas ondas da maré cheia.
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Sua boca pequenina
de uma beleza sem par,
é uma fonte cristalina
onde a sede eu vou matar.
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As suas mãos pequeninas,
de uma beleza sem par,
são duas conchas divinas
que um sonho roubou do mar.

Fonte: Messias da Rocha (org.). Múltiplas palavras vol. III. Juiz de Fora/MG: Ed. dos Autores, 2022.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

José Paulo Corrêa de Souza (Jardim de Trovas)


A criação, sabiamente,
fez num mundo desigual,
que olhos de cor diferente
enxerguem de forma igual.
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A criança usa um pincel
e com traços de emoção,
numa folha de papel
pinta os sonhos que virão.
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Ainda que ao despertar
os seus sonhos desapontem
insista sempre em sonhar
e deixe as mágoas pra ontem.
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A inteligência é uma arma,
um fuzil que salva ou mata.
Quando o alvo não se alarma
é caça na mira exata.
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A quem pinta, eu aconselho
o que o pincel me revela;
quem insiste no vermelho
morre de febre amarela.
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A "sofrência", sem desculpa,
nunca larga do meu pé.
Mas, por certo, é toda a culpa
do "radinho" do Seu Zé!
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Ciúme é um erro que encerra
males de efeito voraz.
No amor, jamais faça a guerra,
sem ter bandeiras de paz.
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É muito triste saber
que a mentira repetida
acaba por esconder
a verdade acontecida.
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E no silêncio da gente,
que a mente planta e renova,
ideias como semente
para colher uma trova.
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Levei tanta chinelada
por rebeldia e, hoje, é belo
sentir saudade encantada
do que ensinava o chinelo.
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Liberdade aprisionada,
consciência adormecida!
Acorda! Não deixe nada
ser corda que enforque a vida!
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Meu coração repartido
por entre o ódio e o amor
leva a vida sem sentido
algemado à própria dor.
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Minha sogra faz intriga
e inda diz que só fofoca,
mesmo assim acaba em briga
e a filha dela me soca.
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Nem sob pressão, me calo
vendo o que justo suspenso.
Se me prendem por que falo,
libertam tudo o que penso.
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Nem vacinas dão respostas,
nem há ninguém resistente,
a sentir vento nas costas
e enfrentar sogra de frente.
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Num pomar abandonado,
no solar da solidão,
sempre busco, amargurado,
doce fruto temporão.
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Nunca feche os olhos! Veja!
Enfrente até o que lhe dói,
pois, a omissão sempre enseja
a mentira que destrói.
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O egocêntrico em perigo
finge que é mudo e que é cego,
e sempre protege o umbigo
na escuridão do seu ego.
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Os culpados sempre negam
e a verdade esconder tentam.
Mas, na mentira carregam
um peso que não aguentam.
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Passa o tempo, tudo muda
e deixa nua a saudade.
O tempo só não desnuda
a verdadeira amizade.
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Pintor velho sempre pinta
pintura documentada,
por um carimbo sem tinta
que tenta dar carimbada.
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Quando a gente sonha, sente,
e a razão sempre socorre
a quem crê, sinceramente,
que a esperança nunca morre.
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Quando o idoso se escancara
co’ uma jovem muito boa,
pergunta-se: – Eu sou o cara?
— Se não for cara, é coroa!
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Seria o fim do perfume,
do doce enleio, do amor,
se o beija-flor, por ciúme,
no jardim matasse a flor.
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Tem rico que fala tudo
pra salvar a pátria amada,
de repente, fica mudo
pra não perder a bocada.
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Todo castelo de areia,
que no sonho alguém constrói,
ou some na maré cheia,
ou vem o vento e destrói.

Fonte:
Messias da Rocha (org.). Múltiplas palavras vol. III. Juiz de Fora/MG: Ed. dos Autores, 2022.
Livro enviado por Lucília Trindade Decarli

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Luzimagda Martin Ramos da Fonseca (Canteiro de Trovas)


A força das minhas mágoas,
ninguém pode calcular.
É mesmo feito a das águas,
que ninguém pode parar!
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Busco fé nas horas mortas,
quando a dor me faz chorar.
Busco ter saídas, portas,
para de novo sonhar.
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Carregado em emoções,
pode o livro conduzir…
Ao real, ou ilusões…
mas sempre ajuda a seguir.
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Com um futuro risonho,
sonhei poder alcançar...
Tudo não passou de sonho.
Apenas pude sonhar!
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Deixar o dia mais lindo,
incumbe-se a bicharada
primavera reluzindo,
sendo a mata agraciada.
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Em meio à tanta beleza,
tendo a paz a nos cercar,
veremos quanta riqueza,
criou Deus, ao nos criar.
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Este amor, outrora lindo,
deixou marcas, muita dor.
E, hoje, embora já findo,
não se tornou desamor!
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É triste a efemeridade
da nossa pobre existência,
confundindo a humanidade,
elucidando a ciência.
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Existe a felicidade,
sempre pronta a nos rondar,
obstáculo na verdade,
é nela, não confiar.
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Faz frio, junto ao fogão,
relembro a paz e o carinho,
horas mortas de ilusão...
que adornaram este ninho.
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Fez da mentira aliada,
no caminho que tomou
e a vida por Deus lhe dada,
em mentira se tornou.
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Foi por minha culpa e pressa,
que o meu destino mudou.
O tempo passou depressa...
e a vida nos afastou!
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Foi uma breve atração,
sentimento sem amor,
fogo intenso de paixão,
que provocou tanta dor!
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Havia serenidade
no aconchego dos meus pais.
Ternura muita bondade,
que não olvido jamais!
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Na emoção de um abraço,
criamos um novo alento…
Até mesmo a dor de fracasso,
se ameniza no momento.
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Não foi amor, foi paixão
que como fogo apagou.
Cremado virou carvão
E nem a cinza ficou!
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Não havia ali fartura,
mas tudo dava e sobrava.
No milagre da ternura,
o pão de multiplicava!
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Não me joguei nos seus braços...
Meu impulso dominei...
Entre dezenas de abraços,
lamento o seu...que deixei.
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Netos... são continuidade,
dos bebês que foram meus.
São bênçãos da eternidade,
presentes dados por Deus!
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O livro é porta aberta,
que nos exorta e conduz,
na busca da coisa certa…
Da luz, que brilha e reluz!
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O medo, não subestimem,
lhes  causa estagnação…
É forma com que oprimem,
seu livre arbítrio e ação.
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O meu lema é o amor,
norteando minha vida.
Meu baluarte na dor…
refrigério na ferida.
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O que dizer da verdade
intrínseca em cada ser?
O erro, na realidade,
é nossa forma de ver.
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O seu miado manhoso,
adorna-me e faz feliz.
É gostoso, carinhoso…
Gatinho, que sempre quis.
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O tempo passa corrido…
Tudo deixando pra traz.
Por tudo, que foi perdido…
Se perdem horas de paz.
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Para estudar, todo dia,
a condução era o trem.
Hoje revivo a agonia…
E a saudade deste bem!
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Plena em cores e alegria,
a nossa vida transcorre,
coloquemos poesia,
no nosso tempo que corre.
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Por vezes na adolescência,
por um simples, “não te ligo”,
amargamos consequência
de intenso e amargo castigo!
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Se este beijo existisse,
no momento da partida…
Talvez você não partisse…
Partindo assim minha vida.
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Sua imagem aparece
em todos os sonhos meus.
Acordo e se desvanece,
pois estás junto de Deus!
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Tempo perdido...eu lamento.
Você foi e não voltou.
Hoje, eu amargo o tormento,
pensando: – o vento levou…
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Teu amor, doce quimera,
me fez sorrir e chorar.
Tudo ficou no “quisera”!
Valeu a pena sonhar!
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Teu sorriso deslumbrante,
de uma riqueza sem par,
fez de mim eterna amante…
Sonhando te reencontrar!
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Ter como foco a criança,
será de grande nobreza,
ver surgir nova esperança,
recobrar a realeza.
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Um passado inesquecível,
está vivo na memória.
Tudo nos será possível…
Resgatando nossa história.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Luiz Carlos Abritta (Álbum de Trovas)


A natureza se vinga
de toda agressão sofrida
e essa revolta respinga
no centro de nossa vida!
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Aos jovens dou um conselho,
nesta vida tão incerta:
não se olhem tanto no espelho
pois Narciso é morte certa!
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Ao teu prazer eu me entrego
- seja lá o que quiseres –
pois te escolhi, eu não nego,
entre todas as mulheres.
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As tuas mãos - que brancura
 - que bonito de se ver,
 pois elas têm a ternura
 dos lírios do amanhecer.
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Busco de novo a verdade
na aspereza dos caminhos,
e só encontro a saudade,
a solidão dos sozinhos!
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Casaste... triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
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Depois de fazer a ronda,
o galo ficou danado:
a galinha, tão redonda,
quis botar ovo quadrado!
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Desde que tu foste embora,
 tua saudade é açoite
 que já começa na aurora
 e dói mais durante a noite!
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Dessa forma Cristo pensa:
"maior será o perdão
quanto maior for a ofensa".
- Que bela e sábia lição!!
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De todo "não" que me deste,
 o que mais triste me fez
 foi aquele que disseste
 disfarçado num "talvez".
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Do meu verso é sempre a fonte
 essa cidade lendária
 chamada Belo Horizonte,
 a Capital centenária!
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Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
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Em cada nota eu receio,
na pauta que a vida escreve,
que transformem nosso enleio
numa simples semibreve.
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É muito estranho, meu bem,
 o relógio do destino:
 vai de manso, vai e vem,
 depois bate em desatino!
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E se em tupi é “kiri”
e lá na Itália “bambino”,
no sul só falam “guri”:
diabruras de “menino’!
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Essa vitória alcançada
 nos obriga a meditar:
 sem o povo não há nada,
 que verdade singular!
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Eu bem sei que tu me esperas
 e, se te vejo, ao sol-posto,
 projeto um céu de quimeras
 na moldura do teu rosto!
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Eu confesso abertamente,
e disso não me envergonho,
que tu foste, simplesmente,
o amplo portal do meu sonho.
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Eu sei que o belo e a verdade
 caminham juntos na vida
 e atinjo a felicidade
 se a ternura é dividida.
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Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!
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Eu te amo tanto, mas tanto
que já pus num pedestal
toda a glória desse encanto,
que se tornou imortal.
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Eu te digo, com alegria,
e a realidade comprova
que o melhor da poesia
é a beleza de uma trova.
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Eu tenho perseverança
e à tristeza me anteponho:
garimpeiro da esperança,
sempre vivi do meu sonho.
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Foi no tempo da janela
e do namoro à distância
que a vida, muito mais bela,
tinha tão grande importância!
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Jamais eu temo o fracasso
 pois me deste o teu amor
 e a simples força do abraço
 me transforma em vencedor!
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Na magia desse sonho,
 nessa noite calma e pura,
 a sonata que componho
 tem as notas da ternura.
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Não foi perto, nem distante:
o nosso amor, ideal,
nasceu da luz de um instante
e se tornou imortal!
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Não me queres... pouco importa...
Só penso no alvorecer,
pois ele sempre abre a porta
à sedução de viver!
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Nas horas mortas da noite,
sem luar e bem-querer,
tua ausência é puro açoite
que duplica o meu sofrer.
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Na tessitura do sonho,
vou cortar, sem mais tardança,
esse nó górdio que imponho
a um amor sem esperança.
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Navegador solitário,
singrando as águas do mar,
jamais pensa em numerário,
mas conjuga o verbo amar!
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Nem o sofista profundo
esta verdade falseia:
quem se julga rei do mundo
é um pequeno grão de areia!
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Nenhum amor se constrói
só com flores e ternura,
pois aquele que mais dói
certamente é o que mais dura.
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Nessa vereda que é a vida,
vou de tropeço em tropeço,
pois cada nova subida
é sempre um novo começo.
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Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
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Nosso amor já teve história
e, por isso, eu te proponho
seja posto na memória
do relicário do sonho.
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Novo estatuto vigora
nas leis do amor hoje em dia:
sei que vale mais o agora
do que a mais bela utopia!
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Numa alquimia de nume,
 à tristeza me anteponho,
 transformando teu perfume
 no perfume do meu sonho!
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O açougueiro viu passando
 a mulher que é só pele e osso
 e disse, a faca afiando:
 "Isso é carne de pescoço".
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Olhando o tempo passar,
no relógio da memória,
eu senti coisa invulgar,
pois revivi nossa história!
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O que conta nessa vida
não é tempo nem idade,
mas a procura renhida
da deusa felicidade.
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O tempo passa depressa
e tão rápido ele flui
que nunca mais recomeça:
– sou a sombra do que fui.
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Quando o cãozinho e o menino
se abraçam por um segundo,
solto o canto peregrino:
- Há salvação para o mundo!
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Quis esquecer-te... não pude:
 a saudade é traiçoeira
 e ela sempre nos ilude,
 pois nos prende a vida inteira!
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Quis retratar um romance
 que fosse mesmo um primor,
 e fiz, com tinta e nuance,
 uma aquarela de amor.
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Sempre foste minha amada
e, no doce cativeiro,
sem algema e sem mais nada,
tu me prendes por inteiro.
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Se não me dás teu carinho,
se não me queres amar,
sou barco triste e sozinho,
que já não quer navegar.
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Se navegar é preciso
e viver nem tanto assim,
vou partir com teu sorriso,
em busca do mar sem fim!
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Se todos temos defeitos,
se o mistério vem de Deus,
se nem os bons são perfeitos,
o que dizer dos ateus?
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Somos poeira que a vida
 sempre leva de roldão;
 em sua sanha atrevida,
 ela não vê coração.
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Só se louva a juventude,
porém jamais alguém disse
que só se atinge a virtude
quando se alcança a velhice.
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Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
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Todos querem sufocar,
 com disfarces atrevidos,
 e sordidez invulgar,
 o grito dos excluídos .
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Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem.
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Tu partiste... e essa magia
 que deixaste no meu peito
 vai fazer que certo dia
 tu voltes de qualquer jeito.
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Vejo o mar em ondas mansas
- foto de rara beleza -
e, reforçando as lembranças,
um céu chamado Veneza!
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"Veredas, grandes sertões"...
a nossa vida é uma estrada
toda cheia de senões,
do início ao fim da jornada.
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Vou definir a saudade
e não sei se estarei certo:
saudade é aquela vontade
de que o longe fique perto.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Augusto Vasconcelos Rubião (1905 - ????)


— Bom dia, Dona Alegria,
com tanta pressa, onde vais?!
— Vou plantar uma saudade
onde o Amor não volta mais!
- - - - - –

Casar é um verbo difícil
de conjugar de mãos dadas.
Às vezes, noivos ditosos,
no lar, são almas penadas.
- - - - - –

Dizem que existe feitiço
que nos deixa atormentado.
Hoje estou acreditando:
por ti ando enfeitiçado...
- - - - - –

Meu coração é relógio,
que vive sempre a bater.
Na dor está atrasado,
mas adianta no prazer.
- - - - - –

Minha terra tem mulatas
e broinhas de fubá.
Recordando os meus amores,
mais prazer encontro eu lá…
- - - - - –

Nossa casa é pequenina,
mas tem a graça de Deus.
De dia o sol a ilumina,
e de noite — os olhos teus.
- - - - - –

O meu peito é um país;
capital — o coração!
É Maria a imperatriz,
para dar-lhe a direção,
- - - - - -

Os teus seios são dois ninhos,
tão brancos como algodão;
neles vivem dois pombinhos,
em busca de um coração.
- - - - - –

Quando chegaste na igreja,
rezei a Salve-Rainha;
com as contas dos teus olhos,
cantei uma ladainha...
- - - - - –

Se a vista tivesse dente,
este mundo estava preto:
teu belo corpo seria
um descarnado esqueleto...


Fonte:
Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Lucy Sother de Alencar Rocha (1928 - 2006)


A cadeira que, na sala,
num balanço  vem e vai…
acorda a saudade e fala
das lembranças de meu Pai…

Ah! Coração, vê se aprendes!
Finges orgulho e altivez,
um mês depois.. te arrependes
começas tudo outra vez !

Ai! paisagem esmaecida
de um quadro em papel machê.
Ai! sombras de minha vida!
Ai! entre as sombras... você!

A resposta custou tanto,
demorou tanto a chegar,
que a esperança lá num canto
envelheceu de esperar!

A saudade em cada fio
dos cabelos, se retrata.
Por isso, é que eu desconfio
que a saudade... é cor de prata.

As coisas simples, modestas,
encerram saber profundo.
Nasceu, sem plumas e festas,
o Maior Homem do mundo!

As jóias, pesando tanto,
são agrados que eu dispenso...
Se queres secar meu pranto,
basta a leveza de um lenço.

Atenta à voz de comando
da patroa, a empregadinha,
pra ver a louça brilhando
lambe os pratos na cozinha.

À "Tua Sombra", não temo
os percalços da maré,
por saber que além do remo,
mais que a força, tenho a fé.

A vida é como a semente,
que não se acaba ao morrer;
fenece, mas novamente
mais tarde... vai renascer!

A vida escreve e ainda assina
mais esta, entre outras verdades:
quem só conhece a neblina
não resiste às tempestades.

Centésima primavera!
Esfumando o azul de um monte,
a natureza se esmera
em seu mais "belo horizonte"!

"Coma a casca (a mãe exorta)
do seu sorvete"... E hoje o Abel
toda vez que come torta...
come o prato de papel!

Conquiste o amor; mas... prudência!
Se o amor for fácil, desista!
Conquista sem resistência
não tem sabor de conquista!

Da capital favorita
dizem de forma sumária:
- "Assim... tão moça e bonita...
não pode ser Centenária"!…

Este louco às gargalhadas
que alegre assim te parece,
esconde em meio às risadas
os conflitos que padece.

Lá nos reinos da lembrança,
lá nos porões da memória,
reina a saudade que trança
e destrança cada história…

Magia – é quando o crepúsculo
do sol, apaga o braseiro,
e um pirilampo... minúsculo…
acende o seu candeeiro…

Mais uma ausência, outra  ausência,
um adeus, um nunca mais.
E a longa e triste sequência
dos momentos sempre iguais. 

Minas, distâncias tamanhas
de vales, cerros, colinas...
das minas sob as montanhas,
velhas montanhas de Minas!

Minha angústia se resume
no gesto em que acaricio
resquícios de teu perfume
num travesseiro vazio…

Minha sorte é tão inglória,
que ostento ao peito, entre laços,
não as medalhas da glória,
mas o troféu dos "fracassos".

Mostram-me, estradas que eu venço
sem ti, sem fé, sem razão,
que o caminho é mais extenso
se quem passa... é a solidão.

Mudo, quieto, sem barulho,     
na sombra em que se mascara
este seu teimoso  orgulho
é o portão que nos separa.  

Murmuram de nós que amamos
um ao outro, mas que importa?
Importa o que murmuramos
nós dois, por detrás da porta...

Não é sobre um mar de rosas
que se afirma o navegante.
São as ondas fragorosas
que fazem dele... um gigante!

Narram as lendas que as dunas
do deserto, à lua cheia,
são encantadas escunas
navegando em mar de areia…

No antigo ninho eu não entro.
Depois que tu foste embora,
sinto mais frio lá dentro
do que no inverno... aqui fora.

Ocasos... eu posso vê-los
num sino longe a tocar:
no branco dos meus cabelos,
no brilho do teu olhar...

O rouxinol quando canta,     
é um joalheiro em serenata,
que tendo de ouro a garganta,   
põe jóias na voz de prata.

Perdi. Não quero consolo.
Mais que "pedra de tropeço",
cada derrota é um tijolo
com que me edifico e cresço.

Por onde andarão, agora,
de mãos dadas, por aí,
tuas mãos, minhas outrora,
que, por um nada, eu perdi?

Porque nos sonhos - é certo
não há muros, nem distância,
quantas vezes eu desperto
nos ontens da minha infância...

Postas as cartas na mesa,
vejo que o amor, na verdade,
deu-me por prêmio... a tristeza
e por conquista... a saudade.

Quando o amor acende a chama
no cenário da paixão,
cobre o inverno e em nossa cama
põe suores de verão.

São chamas do mesmo lume
a invadir com seus bailados;
e ambos - o amor e o perfume
gostam de ambientes fechados…

São teus braços sedutores
o abrigo, onde em devaneios,
“ressonam” meus dissabores
e “cochilam” meus receios.

Se, areia do tempo, alcanças
meu deserto entardecer,
busco o oásis das lembranças
e não me deixo abater…

Se fui sol, fui luz e aurora
dos filhos, no amanhecer,
Sinto nos filhos, agora,
minha luz... no entardecer.

Se o "oásis" - abrigo e sombra -
me promete a lua cheia,
nenhum "deserto" me assombra
com tempestades de areia…

Se tens culpa, nunca apontes    
com teus dedos  a ninguém.
Existem dedos aos  montes
a te apontarem também.

Soberana, eu acredito
ser rainha até meu fim,
não desse reino em que habito,
mas deste que habita em mim.

Tem a vida os seus segredos:
deu-me trabalhos de um jeito...
Não tive calos nos dedos
mas, quantos, dentro do peito!

Tenta. Retorna ao início...
Recomeça as caminhadas...
que a conquista e o sacrifício
andam sempre de mãos dadas.

Teu agrado... e como agradas.
É uma festa para mim
quando as portas são fechadas
e o silêncio esconde um "sim".

Tua ausência vem e conta
o que a presença não diz,
e eu brinco de faz de conta,
fingindo que sou feliz.

Voltou sim! Voltar... voltou.
Abriu-me os braços... sorriu.
Só que... o “você” que chegou
não é o “você’ que partiu...

Lairton Trovão de Andrade (Descontraindo em versos)

01. Destrua a melancolia, pois a vida se renova! Contra a tristeza, Maria, beba chazinho de trova! 02. O plagiário é caricato que no mundo s...