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quarta-feira, 23 de junho de 2021

Maria Thereza Cavalheiro: O Bom Trovar (IV - O que evitar)

 

Embora alguns autores entendam que o enjambement possa dar realce a certas palavras, somos de opinião que deve ser evitado na trova.

Enjambement é quando palavras que pertencem ao grupo tônico de um verso, à sua unidade, passam para o verso seguinte, onde completam o sentido, muitas vezes com prejuízo para o valor da rima.

Ex:
Seguimos pela estrada
da vida, com nossas mãos
unidas; etc.

Versos sibilantes, com muito s e z, podem ser desagradáveis:

Fez-se mais triste depois.
Sentiu-se assim mais sincero.
Sem sentido se exaspera.

Evite-se a colisão, que é o encontro de sons iguais ou semelhantes também com efeito acústico reprovável:

Pois esse se separou.Foi um dardo do destino.

Sons duros seguidos devem ser evitados:

Foi ele que quis o amor.
Quer quanto vale um tesouro.
Ninguém tem amor à dor.

No último exemplo houve também um cacófato:

morador.

É bom ler em voz alta nossas trovas, para detectar possíveis cacófatos, que é quando do encontro de sons em uma frase resultam palavras ridículas, estranhas ou simples efeito desagradável ao ouvido.

Na humorística, às vezes o cacófato é usado de propósito, para um efeito que leve à hilaridade.

Eis alguns cacófatos corriqueiros:

em festa - infesta;
mas não - asnão;
só com - soco;
se enterra - sem terra;
vez passada - vespa assada;
ela tinha - é latinha;
em versos - inversos;
uma mão - um mamão;
por causa - porca;
da nação - danação;
mas que - masque;
compus - com pus;
amor tem - a morte em;
tu me amaste - tu mamaste;
alma minha - maminha.

Quanto ao uso de nomes próprios na trova, embora comum, somos de opinião que deve ser evitado, mesmo na quadra humorística. Só se justifica em trovas de homenagem. Fazemos exceção para o nome Maria, quando designa mulher, e sem ter sentido pejorativo.

Como no exemplo:

Por duas Marias erra
meu viver de déu em déu:
- a que me perde, na terra,
- a que me salva, no céu.
J. G. DE ARAÚJO JORGE

Na trova, devem ser evitados certos recursos para dar ao verso o número de sílabas, as chamadas cavilhas, que são palavras de apoio para completar a frase melódica, tais como:

meu bem, querida, meu amigo, meu rapaz, eu suponho, todos sabem, todos dizem, creia, acredito, veja bem.

Na maioria das vezes, essas expressões nada acrescentam à trova. Mas pode ocorrer também de serem bem empregadas, como no exemplo seguinte:

Quando à festa vens, querida,
em minha casa modesta,
a festa ganha mais vida
e a vida ganha mais festa!
ANTÔNIO ZOPPI

Evite-se, também, o estrangeirismo - uso de palavras e construções estranhas à nossa língua.

Cuidado com o eco - fonemas que se repetem no verso sem nenhum intento específico de valorização da trova.

Atenção especial com os erros de gramática.

Solecismo é, em sentido lato, toda e qualquer infração cometida contra a língua pátria. É muita pena quando uma bela trova apresenta lapso gramatical. O poeta deve dominar os seus meios de expressão.

Achamos de muito mau gosto fazer pilhéria sobre infortúnios ou ridicularizar pessoas em razão de credo, raça e sexo. Infelizmente, a trova humorística presta-se muito a isso. A mulher, principalmente, é bastante visada. Faz-se piada com a sogra, a velha, a empregada, a grávida, a mulata.

Zombar de alguém em nada contribui para a melhoria do mundo, que necessita de mensagens fraternas.

Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Ed. do Autor, 2009

terça-feira, 22 de junho de 2021

Maria Thereza Cavalheiro: O Bom Trovar (III - Figuras na Trova)

 

A trova se valoriza pelo achado, pelo inusitado - algo que surpreende no momento da criação. É uma nova forma de dizer o que já foi mil vezes dito; uma ideia diferente para expressar alguma coisa comum. Pode ser um jogo de palavras, uma metáfora, uma rima original. O achado é uma descoberta.

Como elementos de valorização da trova, merecem atenção especial as figuras de estilo, recursos que dão ao verso maior colorido e fulgor.

Elas são muitas e se dividem em figuras de palavras (ou tropos), figuras de pensamento e figuras de construção.

Entre as figuras de palavras, temos
 a metáfora (e suas modalidades, como personificação, símbolo, sinestesia),
 a comparação e a metonímia.

Entre as figuras de pensamento, estão
 a antítese ou contraste,
 o paradoxo,
 o eufemismo,
 o trocadilho.

Entre as de construção temos
 a onomatopeia,
 a aliteração,
 a elipse,
 a reticência,
 a repetição.

Muitas vezes esses termos se confundem e simplificadamente são chamados de figuras, imagens ou metáforas em sentido lato.

Na metáfora, em sentido estrito, a imagem se revela por si só, de modo implícito. Sem nenhum suporte para sua expressão, o que a torna mais viva e dinâmica que na comparação. Assim:

Muitas vezes imagino,
nos meus dias desolados,
que o meu coração é um sino
dobrando sempre a Finados.
BELMIRO BRAGA

Faz contraste com o céu
o pinheiro verdejante;
é uma taça erguida ao léu
em louvor do caminhante!
MAFALDA DE SOTTI LOPES

No ocaso, em tarde sombria,
que à saudade nos conduz,
a sombra é o pranto do dia ,
chorando a ausência de luz.
FERREIRA NOBRE

Disse-me a fonte na mata,
nos ternos cânticos seus:
- O Poeta é a flauta de prata,
o Poema - o sopro de Deus!
LEONARDO HENKE

Na comparação ou símile, a imagem se revela com auxílio das palavras como, tal como, tal qual, qual, parece, e, por ser explícita, perde em geral um pouco de sua força. Eis um exemplo:

Meu coração, quando o ninas
com tuas juras de amor,
parece um templo em ruínas
todo coberto de flor!
LILINHA FERNANDES

Personificação, que também é denominada prosopopéia, animismo e animizaçâo, é a figura de linguagem em que seres inanimados ou irracionais agem como se fossem seres humanos:

Ao sol, as rosas vermelhas,
sensuais, tontas de luz,
à carícia das abelhas,
vão expondo os colos nus!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA

Símbolo é quando se toma, sistematicamente, uma coisa, de valorização universal, por outra, a exemplo de cruz, que pode simbolizar o Cristianismo, a dor, a morte; ou regaço, que pode referir-se a colo materno:

A vida é apenas um traço
com jogos de sombra e luz,
que partindo de um regaço
vai terminar numa cruz.
VERA VARGAS

Sinestesia é quando se confundem os planos sensoriais, usando-se de um sentido por outro, para um determinado efeito. Como nos versos:

Vê-se o canto da araponga.
Ouve-se a luz da manhã.
Enxerga-lhe a cor da voz.

Metonímia é quando se diz uma coisa por outra, o efeito pela causa e vice-versa:

cãs, por velhice;
primaveras, por anos;
suor, por trabalho.

É bastante comum na trova e a enriquece sobremaneira:

As cãs mostravam o tempo.
Na primavera da vida.
Suores de muitos anos.

Na antítese ou contraste, juntam-se ideias opostas pelo sentido:

Trouxe-me grande valia
a verdade que aprendi:
toda pessoa vazia
é sempre cheia de si...
DELMAR BARRÃO

No paradoxo, as ideias são contraditórias, a sugerir erro, mas podendo conter uma verdade:

Meu olhar vago relata,
numa tristeza incontida,
que o grande amor que me mata
é o mesmo que me dá vida.
LEOPOLDINA DIAS SARAIVA

Quando preso num recinto,
desejo livres espaços.
Porém, mais livre me sinto
quando preso nos teus braços.
MÁRIO BARRETO FRANÇA

O eufemismo é uma maneira de suavizar uma realidade desagradável, é quando se diz uma coisa por outra menos contundente:

Foi para o mundo estelar - faleceu.

No trocadilho, há palavras de sons semelhantes e sentido aparentemente dúbio, às vezes com o intuito de fazer graça:

Foste uma flor de papel / fazendo papel de flor.

Na elipse, um ou mais termos ficam subentendidos na frase:

Rosa é flor, também mulher.

Na reticência, há uma suspensão propositada do pensamento:

Era um amor sem controle...

Repetição é quando se usa uma expressão por mais de uma vez, para o efeito de realce:

Branca a nuvem, branca a paz.

A onomatopeia e a aliteração, termos que muitas vezes se confundem, podem trazer muita originalidade à trova.

Aliteração é a repetição de fonemas iguais ou parecidos para, através do som, sugerir uma ideia:

Onda redonda assomou.

A aliteração aproxima-se muito da onomatopeia, que, em sentido estrito, é quando um único vocábulo dá a ideia acústica:

o marulho das ondas,
o farfalhar das ramagens.

Em sentido lato, a onomatopeia refere-se a todos os processos e efeitos que levem a sugerir um determinado ruído.

Bate o vento, o vento bate.

A assibilizaçâo (sons sibilantes, excesso de s e z), que normalmente se condena, pode também servir à aliteração:

Zunem com asas de brisa.

Várias imagens podem aparecer com frequência em uma mesma trova, e seus nomes também muitas vezes se confundem.

Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Ed. do Autor, 2009

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Maria Thereza Cavalheiro: O Bom Trovar (II - Os ictos - o ritmo - a cadência)

 

Muitos autores têm declarado que na trova não há um esquema acentuai obrigatório e, por isso mesmo, os versos de sete sílabas são chamados de arte menor, em contraposição aos versos de mais de sete, estes sujeitos a ictos obrigatórios e chamados de arte maior.
          Em verdade, porém, o setissílabo apresenta oito ritmos recomendáveis, e a trova pode - e deve – para não ser monótona,  apresentar variedade sonora em seus versos.
         Icto é o acento obrigatório no verso, que marca o seu ritmo. Este varia conforme a disposição das sílabas tônicas e átonas no verso. Muito embora se  confundam em sentido lato, diferenciam-se ritmo e cadência. Assim, conforme os ictos, o ritmo pode ser variável, mas a trova, como diz Francisco Nogueira, "pode ter ou não uma cadência, que é a repetição do mesmo ritmo nos quatro versos", a qual é, assim, invariável.
         Eis uma trova com a mesma cadência nos quatro versos e com o ritmo 3-5-7:

CoraÇÃO de MÃE - canTEIro
 em peREne FLOraÇÃO,
 onde um SANto JARdiNEIro
 planta as ROsas DO perDÃO.
 MARILITA POZZOLI

         A seguir, uma de Autor desconhecido, com versos todos no ritmo 1-3-7:

 EU queRla, ela queRla;
 EU peDla, ela neGAva;
 EU cheGAva, ela fuGla,
 EU fuGla, ela choRAva.
 ANÔNIMA
        
Já vimos que o verso se conta até a última sílaba tônica, e, assim, o setissílabo tem sempre um icto na 7a. São as tônicas que dão, também, a acentuação interna do verso, elas que marcam os ictos e dão o ritmo.
   Registramos, pois, os oito esquemas referidos, cada um exemplificado com verso de nossa autoria, também com os ictos em letras maiúsculas:

ÉS meu SOL: EsTREla-GUIa                        1-3-5-7
BUSco a esTREla no caMInho                     1-3-7
A disTÂNcia é MEU torMENto                       3-5-7
A sauDAde é passaRlnho                            3-7
Minha trisTEza é infiNIta                             1-4-7
Uma espeRANça que DORme                      4-7
LemBRANças QUEImam: são BRAsas          2-4-7
A NOIte faBRIca esTRElas                           2-5-7

         Lembre-se que há palavras que têm um acento próprio, tônico, bem marcado: flor, quimera, rápido. Em outras, esse acento não é tão sensível: sereno, acidente, monte. Na sequência de vocábulos, principalmente essas palavras que não têm um acento marcante podem apresentar acentuação oscilante, sujeita ao ritmo global do verso. Há um processo natural de acomodação das palavras ao ritmo. Em função do conjunto fonético, as sílabas graves e tônicas, conforme sua disposição no verso, podem aumentar ou diminuir de intensidade. Daí também um mesmo verso poder apresentar mais de um ritmo, a se enquadrar ora num, ora noutro esquema.
         Observe-se que palavras longas podem ter um ou mais acentos secundários (subtônicas), o que acontece principalmente com palavras compostas: inTENsaMENte, AEroPORto, COUve-FLOR. Outras podem apresentar pronúncia variável, e receber um acento de intensidade : MIseRÁvel, MAraviLHOso.
         Palavras proparoxítonas apresentam também um acento secundário na última sílaba: LÍMpiDO, ÂNgeLUS, PÉRgoLA. No interior do verso, essas palavras podem contribuir para bons efeitos rítmicos. 
         Note-se que um verso aparentemente com acentuação apenas em 2-7 pode ter seu ritmo dado pela acentuação secundária em 2-4-7 ou 2-5-7, como em:

 DeBAIxo DOS serinGAIS                            2-4-7 ou
 DeBAlxo dos SErinGAIS                              2-5-7

         Autores conceituados incluem ainda no setissílabo o esquema 1-5-7, no qua! entra, mas forçadamente, para dar o ritmo, a acentuação secundária, no esquema 1-3-5-7. Na trova literária, porém, em nosso entender, o ritmo, no caso, se torna um tanto artificial. Como no verso:

 CAbe numa BARca DE Ouro                       1-5-7

         Já o esquema 2-6-7 foge completamente ao ritmo poético, tal como no exemplo: MosTROU-me o carroÇÃO VElho.
         O assunto, porém, é complexo: em caso de dúvida, apure-se o ouvido para o melhor resultado.
         Vejamos algumas trovas de ritmos variados, todas com boa sonoridade:

Os TEUS dois GRAMpos de PRAta                         2-4-7
LEMbram-me aGOra, ao prenDÊ-los,                     1-4-7
DUAS esTRElas briLHANdo                                   1-4-7
na NOIte dos TEUS caBElos.                                2-5-7
CORRÊA JÚNIOR

QUANto MAIS teu CORpo enLAço,                        1-3-5-7
 mais paDEço o MEU torMENto,                            3-5-7
 por saBER que MEU aBRAço                                3-5-7
 não PRENde o TEU pensaMENto.                         2-4-7
 JESY BARBOSA

SauDAde - perFUme TRISte                                 2-5-7
de uma FLOR que NÃO se VÊ.                              3-5-7
CULto que aINda perSiSte                                    1-4-7
num CRENte que JÁ não CRÊ.                              2-5-7
MENOTTI DEL PICCHIA

Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Ed. do Autor, 2009

domingo, 20 de junho de 2021

Maria Thereza Cavalheiro: O Bom Trovar (I - Rima: elemento imprescindível)

 

A rima é essencial na trova, e consiste na conformidade de sons de duas ou mais palavras, a partir da última vogal tônica. Assim, Maria rima com tardia - vogal tônica i; temerária rima com primária - vogal tônica a.
        Na trova, em sua forma mais simples, é regra que as rimas do 2° e do 4° verso, pelo menos, sejam consoantes, aquelas que conservam a conformidade total de fonemas a partir da última vogal tônica: destino - sino; planta - encanta. Mas podem haver bons efeitos sonoros também quando o 1° e o 3° verso trazem apenas rimas toantes, aquelas que apresentam identidade de sons somente nas vogais tônicas: dilema - pena; pedra - terra; lavra - escrava.
        As rimas podem ser perfeitas: mão - pão; sereno - pequeno. Ou imperfeitas: traz - mais; luz-azuis. No 2° e no 4° verso, devem ser evitadas as imperfeitas, mas acreditamos que, no 1° e no 3°, estas podem trazer sonoridade à trova. Algumas imperfeitas, por serem quase perfeitas, são, no entanto, admissíveis: boca- louca; beijo - desejo. Como na trova seguinte:

Essa que afasta os abrolhos 
de minha existência louca,
carrega a noite nos olhos
e a madrugada na boca.
ALCEU WAMOSY

No exemplo seguinte, todas as rimas são perfeitas:

Quem ama parece louco,
leva uma vida enganosa,
é como eu, que inda há pouco,
disse - Bom dia! a uma rosa.
MARTINS FONTES
        
São consideradas pobres as rimas de palavras da mesma classe gramatical e de verbos no mesmo tempo. Para nós, o que deve ser evitado é o emprego de rimas de advérbios em mente (finalmente - ternamente), de gerúndios (chovendo - sofrendo), de particípios (sofrido - colhido), e, o quanto possível, de verbos no infinitivo (amar - chorar; colher- sofrer, sorrir - partir, por- compor).
        Mesmo assim, pode haver uma boa trova com esses tipos de rimas, quando valorizada pela ideia, pelo achado. Vejamos as seguintes:

Para matar as saudades,
 fui ver-te em ânsias, correndo...
- E eu, que fui matar saudades,
vim de saudades morrendo!
ADELMAR TAVARES

A noiva passa levada
pelas asas do seu véu:
é como Estrela enfeitada
para uma festa no céu.
ABGUAR BASTOS

        E a seguinte, com todas as rimas em verbo:

Saudade é tudo o que fica
daquilo que não ficou;
lembrança, que mortifica,
daquilo que se acabou.
JOARYVAR MACÊDO

        É bom evitar, quanto possível, rimas de palavras derivadas, consideradas pobres: encanto - desencanto; tempo - contratempo; caminho - descaminho; crença - descrença; caldo - rescaldo.
        Vêm sendo comumente chamadas pobresas rimas fáceis, como as que se fazem em ar, or, ão. No entanto, podem ser obtidos bons resultados com esse tipo de rimas. Veja-se a trova seguinte, aliás, com rimas imperfeitas no 1° e no 3° verso:

Por esses campos azuis,
ó lua do meu sertão,
tu és um pente de luz
nas tranças da escuridão!
FÉLIX AIRES

        E esta, de rimas perfeitas, também cheia de simbolismo:

Velhinha, de vida breve,
já misturando estação,
a paineira chora neve
num vendaval de verão!
CARMEN OTTAIANO
        
A trova seguinte, com rimas em orno 2° e no 4° verso, é uma das mais bonitas da nossa língua:

Saudade, palavra doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando a flor.
BASTOS TIGRE

        São consideradas ricas as rimas de classes gramaticais diferentes: medo(substantivo) - cedo (advérbio); chuva(substantivo) - desluva (verbo).
        Também as que se destacam pela originalidade: strip-tease - deslize; labirinto - retinto; cofre - sofre.
        São ainda consideradas ricas as rimas de palavras iguais mas com sentido diferente: muda (adjetivo) - muda (verbo).
        Rimas preciosas são rimas exóticas, obtidas com palavras combinadas: se abre- sabre; silêncio - pense-o; foice- foi-se; vê-la - estrela. Eis uma trova com rimas preciosas no 2° e no 4o verso:

A vida que vivo agora,
só me encoraja vivê-la,
porque a saudade, lá fora,
me vigia de uma estrela!
C. A. BEIRAL

        Rimas raras são aquelas pouco encontradas para determinadas palavras: cisne - tisne; noite - açoite; olhos - abrolhos- escolhos. Essas rimas, porém, se tornaram muito desgastadas.
        Rimas completas (também chamadas ricas) são aquelas em que há concordância inclusive nas consoantes que precedem as vogais tônicas: lavra- palavra; candelabro - descalabro.
        Rimas auditivas, diz-se daquelas em que há conformidade de sons, mas não de grafia: messe -prece; lasso - laço.
        As rimas de palavras agudas (oxítonas) são também chamadas masculinas; as graves (paroxítonas), femininas. Alguns são de opinião que a trova deve sempre ter início com verso grave.
        Outros condenam a trova só de versos agudos, que consideram "duros". Achamos exagero nessas opiniões, mas, no geral, preferimos começar a trova com verso grave, sem que isto seja uma regra.
        Vejamos uma trova com rimas agudas no 1° e no 3° verso, com bons efeitos sonoros:

Não tenhas tanto temor
 do veneno da serpente.
 Causa muito mais pavor
 a lingua do maldizente!
 ALICE DE PAULA MORAES

        Devem ser evitadas as rimas homófonas, isto é, as que tenham a mesma vogal tônica e o mesmo som (ou só aberto, ou só fechado). Mas as rimas homófonas podem ser compensadas com um bom jogo de vogais no interior da trova, que, assim, não ficará prejudicada, como na quadra seguinte, com a vogal tônica i:

Quando ri, um passarinho
sai cantando de teu riso,
para mostrar-me o caminho
que conduz ao paraíso.
MURILLO ARAÚJO

        Quando é a mesma vogal tônica, mas alternando sons abertos e fechados, não há homofonia:

Jamais se rende o penedo
ao delírio das marés.
O mar agride o rochedo,
mas sempre morre aos seus pés.
VASCO DE CASTRO LIMA

        Rimas internas são as que se repetem também dentro do verso, em geral aleatoriamente, e contribuem para o efeito sonoro. Na trova seguinte, recamadaé uma rima interna:

Minha vida é uma almofada
recamada de açucenas;
por fora - tão cobiçada,
por dentro - cheia de penas.
LOURDES STROZZI

        Não se deve aceitar como rima um som aberto com o mesmo som porém fechado: vela - estrela; belo - selo; bode - pôde; céu - seu; menor - alvor; leve - teve; credo - medo; redor - amor; ainda que haja exemplos de bons poetas nesse sentido.
        Os melhores efeitos são conseguidos com pares de rimas contrastantes. A rima valoriza a trova, mas a ideia, o achado, a mensagem, vêm em primeiro lugar. Vejamos algumas trovas com boas
ideias e rimas bem contrastantes:

Eu sei de uma negra cruz,
de tão negra não tem nome:
essa que o pobre conduz
pelo calvário da fome.
SEBASTIÃO SOARES

Nunca o amor se satisfaz
e sempre se contradiz:
Faz e não sabe o que faz,
diz e desdiz o que diz...
LUIZ RABELO

Naquele instante do adeus
do nosso encontro fortuito,
teus olhos e os olhos meus,
discretos, disseram muito.
HEITOR STOCKLER

A própria infância, também,
é do passado uma voz:
Saudade, às vezes, de alguém,
que vive dentro de nós...
HELVÉCIO BARROS

Quem não calcula a descida
 e faz da droga um suporte,
cai do trapézio da vida
na rede fria da morte.
HILDEMAR DE ARAÚJO COSTA

Fonte: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Trovas para refletir. SP: Ed. do Autor, 2009

terça-feira, 15 de junho de 2021

Luiz Otávio (Aspectos da Trova Humorística)

 
1 - A MALÍCIA:

Embora o conceito de malícia seja variável de pessoa para pessoa, há certo tipo de malícia que choca, de imediato, a quem a ouve. Assim, o leitor de alguma sensibilidade e cultura saberá distinguir a malícia fina, daquela que traz humorismo grosseiro.

A malícia, em nossa opinião, mesmo tendendo para o plano sexual, quando bem dosada, sutil, é perfeitamente aceitável em Trova.

Vejamos, por exemplo, esta trova de A. Bobela Mota, trovador português, em que há malícia com fundo sexual e que, entretanto, é plenamente aceitável:

Graças a certo percalço,
encontraste, enfim, marido…
Como vês, um passo em falso
nem sempre é um passo perdido…

Ou esta outra de Antônio Carlos Teixeira Pinto:

Minha sogra é mesmo o fim,
eu digo e sinto vergonha:
dúvida tanto de mim,
que acredita na cegonha…

De resto, até mesmo em trovas líricas, pode aparecer o erotismo explorado de maneira sutil e inteligente, emprestando força poética à mensagem, sem chocar a sensibilidade do ouvinte ou leitor.

2- A CRÍTICA, A SÁTIRA, A IRREVERÊNCIA

É inconveniente a trova que, de modo intencional, ofende, genericamente, um grupo, uma instituição, uma classe… Todavia, consideramos que é perfeitamente válida, aquela que toma, individualmente, um elemento pertencente a uma determinada profissão ou grupo, para desse indivíduo, assim isolado, fazer motivo de humor.

Como exemplo, citaremos a conhecida trova de Antônio Salles, que satiriza, ao mesmo tempo, um militar e um médico, sem que, com esta sátira, ofenda a classe médica ou militar:

Eis um médico fardado
- que perfeito matador!-
quem escapar do soldado,
não escapa do doutor…

Excepcionalmente, pode-se aceitar a trova, mesmo quando faz crítica a uma classe, porém sem premeditação de ofensa, isto é, com intenção, apenas, de fazer graça.

Tomemos, para exemplo, a Trova de Elton Carvalho que, por coincidência, é militar:

A mulher do militar
deve pagar mais imposto,
só pelo fato de usar
sempre um marido… com…posto…

Ora, ainda que seja uma graça extensiva a toda uma classe – a mulher do militar – não há absolutamente, ofensa ou crítica, mas tão somente, o humorismo ingênuo de um trocadilho.

3- EMPREGO DE NOMES PRÓPRIOS

Os nomes próprios vêm sendo usados, sem discriminação, em vários gêneros literários. Na prosa, Machado dá nomes adequados, para dar maior ênfase àquilo que escreviam. O sofrimento ou o riso, não raro se estampavam no nome que era dado ao personagem, principalmente o riso, pois Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e outros, escolhiam os temas humorísticos que facilitam enormemente a escolha do nome, vamos dizer, engraçado. Na poesia desde os clássicos, quantas vezes os nomes inventados ou verdadeiros passaram a ficar indissoluvelmente ligados aos autores. Quem não se recorda de Marília de Dirceu, de Laura de Petrarca, de Beatriz de Dante? Na música popular, vemos uma infinidade de nomes que se tornaram celebres, através de valsas, polcas, canções, no passado,e, em outros gêneros musicais, no presente. Branca, Gilca, Maria, Neusa, Nanci, Amélia, Dora, Aurora, Marina, e, bem recentemente, Carolina, Luciana, Ana Maria, Isabela, etc… etc… São alguns dos nomes focalizados pela música popular. Nos anúncios de rádio e da televisão, anúncios muitas vezes estudados por equipes compostas de elementos formados em faculdades de comunicação, quantas vezes, o nome próprio aparece para facilitar a memorização daquilo que se pretende anunciar. Então aí os Apolônios, Jeremias, os Sugismundos…

Na própria trova lírica ou filosófica, quantas premiadas em concursos, ou consagradas pelo gosto popular, trazem nomes próprios!

Exemplo:

 Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia:
Dentro da casa a saudade,
E na saudade, - Maria!

Esta trova, de Anis Murad, é uma das muitas que poderíamos citar e que foi classificada em 1º lugar, nos II Jogos Florais de Nova Friburgo. E quantas mais, não só em Nova Friburgo. Como em outras cidades, têm aparecido, principalmente, com o nome de Maria, quase um símbolo dos trovadores…

Há, além dos argumentos acima, outros que poderemos lembrar, em favor do aproveitamento de nomes próprios na trova humorística, tais como:

a- O nome próprio, em alguns casos, dá mais autenticidade ao assunto;

b- Há nomes próprios que, por si sós, pelo grotesco que apresentam, trazem mais humor à trova;

c- Em alguns casos, a trova gira, essencialmente, em torno do nome próprio usado;

d- Se encontramos, muitas vezes, trovas de rimas forçadas – humorísticas ou não – por que não usar o nome próprio que, além de facilitar a rima, pode trazer mais graça e fluência à trova?

Portanto, em nosso entender, é perfeitamente válido o uso de nomes próprios nas trovas, principalmente, humorísticas.

4 - USO DE GÍRIA

No capítulo da gíria, cabem as mesmas considerações que fizemos com relação aos nomes impróprios. Tanto na poesia humorística, como na prosa e, principalmente, no teatro, a gíria está presente. Não esqueçamos, também, que a gíria de hoje, amanhã poderá estar incorporada ao vernáculo. Assim tem acontecido em várias épocas, no processo evolutivo das línguas.

Chega-nos, agora, através do rádio, a notícia que o DNER do Ceará, numa experiência inusitada, está, em alguns lugares, substituindo as clássicas advertências de "cuidado", "devagar", por outras, bem modernas, onde a gíria é o principal ingrediente: "manera aí, bicho!" ou  "vá em marcha de paquera", etc…

Portanto, achamos perfeitamente natural o uso da gíria em trova humorística, por sua característica eminentemente popular.

5- PORNOGRAFIA

Muito embora o teatro moderno venha usando, ostensiva e abusivamente, a pornografia, quer parecer-nos que quase tudo isto é feito com fins comerciais ou sensacionalistas. Devemos, ainda, considerar que ao Teatro, comparecem aqueles que, com conhecimento de causa, estão dispostos a ver de perto tudo aquilo. Devemos frisar ainda que, muitas vezes, a censura faz imposições, limita a entrada a pessoas de determinadas idades. Isto acontece, também, em livros do mesmo estilo, em que se exige sejam os mesmos colocados em envelopes lacrados, com etiquetas proibitivas de venda a menores, Tal porém, não acontece com a trova pornográfica que, se declamada em público ou colocada em livro, poderá surpreender, desagradavelmente, o ouvinte ou o leitor. 

Embora nos itens anteriores, tenhamos demonstrado nossa compreensão quanto ao uso da malícia, irreverência, do emprego de nomes próprios, da gíria, achamos que a trova nada lucraria com o uso de palavras obscenas, ainda que veladas.

6 - ANEDOTAS

Embora seja aceitável a publicação em livros, jornais, revistas, etc, as trovas humorísticas calcadas em anedotas, julgamos que, em concursos e jogos florais, há outros aspectos importantes a considerar, além da graça, como seja a criatividade, a originalidade, enfim. Nessa ordem de ideias, é desaconselhável a classificação de trovas com aproveitamento de anedotas.

Acontece porém, que as comissões julgadoras poderão não conhecer as anedotas aproveitadas pelas trovas, o que torna interessante, portanto, o apelo que, ultimamente, os organizadores de concursos vêm fazendo, durante a classificação preliminar, no sentido de que, concorrentes ou leitores cooperem com as comissões, indicando as trovas que apresentem ideias já conhecidas (como anedotas), desde que, devidamente comprovadas, a fim de serem eliminadas do concurso.

7 - USO DO "PRA"

Julgamos essa "síncope" perfeitamente aceitável, principalmente nas trovas humorísticas, por ser expressão essencialmente popular.


Comissão de estudos: Luiz Otávio, Carlos Guimarães, Elton Carvalho, Joubert de Araújo Silva, Maria Nascimento Santos, P. de Petrus, Colbert Rangel Coelho.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Aparício Fernandes (Como Fazer uma Trova Antológica)


É muito simples. Tome:

A dramaticidade de João Rangel Coelho:

Senhor Deus! Ó Pai dos Pais!
Por que motivo consentes,
entre teus filhos iguais,
destinos tão diferentes?


A brejeirice de Luiz Homero de Almeida:

Sobre o busto ela trazia
três rosas frescas, catitas.
E, contando-as, eu dizia:
– Que cinco rosas bonitas!…


A fluência de Américo Falcão:

Não há tristeza no mundo
que se compare à tristeza
dos olhos de um moribundo
fitando uma vela acesa…


A musicalidade de Cícero Dias:

A tua casa pendida
entre o rosal e a mangueira
é uma açucena caída
no vermelhão da ladeira.


O humanismo de Zálkind Piatigorsky:

Tudo o que tenho reparto,
ó Senhor, sempre em Teu nome!
Tu fizeste o mundo farto,
o homem é que fez a fome!


A sugestão poética de Corrêa de Oliveira:

Ó ondas do mar salgado,
de onde vos vem tanto sal?
– Vem das lágrimas choradas
nas praias de Portugal!


O lirismo de Archimimo Lapagesse:

Se Deus atendesse um dia
minha prece ingênua e doce,
quem fosse mãe não morria,
por mais velhinha que fosse!


A simplicidade de Edgard B. Cerqueira

Saudade – lembrança triste
de tudo que já não sou!
Passado que tanto insiste
em fingir que não passou…


A originalidade de Adherbal de Carvalho:

Da lua sob os clarões,
os leques destas palmeiras
parecem caudas faceiras
de agigantados pavões!


A filosofia de José Maria Machado de Araújo:

Neste mundo que nos cansa,
tanta maldade se vê,
que a gente tem esperança,
mas já nem sabe de quê!…


A ironia de Belmiro Braga:

Quanta vez, junto a um jazigo,
alguém murmura de leve:
– Adeus para sempre, amigo!
E o morto diz: – Até breve!…


Junte tudo isto, transponha para uma só trova e não há dúvida: você terá feito a melhor trova do mundo!

Fonte:
Aparício Fernandes. A trova no Brasil: história & antologia. Rio de
Janeiro/GB: Artenova, 1972

domingo, 9 de maio de 2021

Aparício Fernandes (Trovas Circunstanciais) - 3, final -


Por ocasião de um dos Jogos Florais de Pouso Alegre, homenageando o magistrado e poeta Jorge Beltrão, Adalberto Dutra de Rezende "aplicou" este improviso:

Tua palavra correta
te põe da glória na crista,
como brilhante poeta,
como eminente jurista!


Há também os casos em que as trovas de circunstância são também trovas de propaganda. Várias delas aconteceram, por exemplo, em dezembro de 1962, quando, a convite da escritora Mariazinha Congílio, vários trovadores estiveram na cidade de Jundiaí e foram convidados a visitar a famosa fábrica de doces Cica. Essa fábrica é de fato algo de notável, pela limpeza e pelo requinte de perfeição que se traduz na qualidade de seus produtos. Diante disto, vários trovadores improvisaram suas quadrinhas. Eis algumas delas:

De Zálkind Piatigorsky:

Um bom paladar se indica
às vezes num simples nome:
- quando ouço falar de Cica,
na verdade sinto fome!


De Admerval Silva de Souza:

Que doces apetitosos
neste lugar se fabrica!
Que seria dos gulosos,
se não existisse a Cica?


De Colbert Rangel Coelho:

Suporta melhor a carga,
que bem mais leve lhe fica,
quem na vida tão amarga
saboreia doces Cica!


De Luiz Otávio:

É a mais pura realidade:
- a pessoa — pobre ou rica —
se tem gosto de verdade,
só prefere o doce Cica!


De Ivo dos Santos Castro:

Verias, meu bem, se fosses
comigo até Jundiaí:
- Cica é a fábrica de doces
mais completa que já vi!


De Raul Serrano:

A vida seria pura
e de alegrias mais rica,
se nela houvesse a doçura
dos doces de marca Cica!


De Aparício Fernandes:

Com tanto carinho é feito,
que logo se verifica:
– é sempre mais que perfeito
qualquer produto da Cica!


Quando já nos despedíamos, fui brindado com o sorriso amável de uma linda operária, o que deu motivo a mais esta trova:

Que dúvida extraordinária
seu sorriso comunica!
Quem é mais doce: – a operária,
ou o doce que ela fabrica?


Guimarães Barreto cita uma trova-propaganda de Olavo Bilac, promovendo os fósforos "Brilhante". Bilac cobrou cem mil réis pela trova — o que, na época, era um bom dinheiro. Eis a quadrinha:

Aviso a quem é fumante:
- tanto o Príncipe de Gales
como o Dr. Campos Sales
usam fósforos Brilhante.


E outra, curiosíssima, de um bicheiro fazendo propaganda do seu jogo:

Jogadores avisados,
o meu palpite, hoje, é
cercar por todos os lados
o macaco e o jacaré.


Aliás, esta tese foi apresentada no Congresso de Trovadores realizado em Nova Friburgo em 1969 — a Trova, pela sua comunicabilidade e sendo fácil de se decorar, valor é     um elemento de que extraordinário publicitário, surpreendentemente     ainda não despertou nos especialistas     do assunto (sempre à cata de "idéias geniais") a atenção de que é merecedora.

Naturalmente, para que uma trova alcance êxito como fator de promoção publicitária, é necessário que seja feita por um verdadeiro trovador. Versinhos forçados e de "pé-quebrado" jamais adiantariam...

Muito úteis me foram também as trovas de circunstância quando, no mês de abril de 1970, a convite do Dr. Domingos Vieira Filho, diretor da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, e do meu caro amigo, o dinâmico poeta e trovador Carlos Cunha, Presidente da Academia Maranhense de Trovas, fiz uma palestra na capital maranhense. Os maranhenses são um povo cuja tradição de cultura é algo de muito sério. Sua hospitalidade não fica atrás. Por isso, até banda de música havia na Academia Maranhense de Letras, para a minha palestra. Minhas primeiras palavras foram estas trovas de circunstância:

Minhas senhoras, senhores
presentes à reunião,
meus irmãos, os trovadores
do Estado do Maranhão,

Não espereis um tribuno
de palavras colossais,
pois sou um simples aluno
que aqui veio aprender mais.

Na terra em que Assis Garrido
deu lições de inteligência,
não quero ser presumido,
para fazer conferência.

Por isso, em linguagem destra,
mas sem nada de genial,
vou fazer uma palestra
muito simples e informal.

A trova são quatro versos,
que nos dão muito prazer.
Os assuntos mais diversos
pode uma trova conter.

Mas antes quero dizer,
com toda sinceridade,
do meu imenso prazer
por estar nesta cidade.

São Luís, em toda parte,
como um sol que se irradia,
será sempre um baluarte
da cultura e da poesia.

Seu próprio nome comprova
esta grandiosa missão:
– pois é um verso de trova
São Luís do Maranhão.

No Rio Grande do Norte,
no Encontro dos Trovadores,
tornou-se muito mais forte
minha amizade aos senhores.

Pois em Natal viu-se o brilho
do Maranhão que se impunha:
- Virgílio Domingues Filho
ao lado de Carlos Cunha!

Quando o Nordeste deixei,
para tentar vida nova,
minha saudade cantei
dizendo em forma de trova:

– Parti do Norte chorando,
que coisa triste meu Deus!
Eu vi o mar soluçando
e o coqueiral dando adeus!...

Hoje eu digo aos maranhenses,
já saudoso e emocionado:
- não partirei totalmente
desse Estado abençoado.

À sombra de uma palmeira,
deixarei meu coração.
E, na hora derradeira,
ao tomar a condução.

Minha esposa e eu diremos,
com imensa gratidão:
– nós jamais esqueceremos
São Luís do Maranhão!

Após vos haver falado
estes versos incolores,
vamos ao mundo encantado
da Trova e dos Trovadores.


E fiz então a minha palestra, que, aliás, continha vários aspectos da Trova abordados neste livro.

Como se vê, a trova de circunstância desempenha um importante papel na animação dos encontros trovadorescos. Pena que a quase totalidade delas se perca ao sabor do improviso ocasional.


Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de
Janeiro/GB: Artenova, 1972

Lairton Trovão de Andrade (Descontraindo em versos)

01. Destrua a melancolia, pois a vida se renova! Contra a tristeza, Maria, beba chazinho de trova! 02. O plagiário é caricato que no mundo s...