domingo, 7 de março de 2021

Cantinho do Assis (Pausa para Reflexão)


Os concursos têm sido muito úteis ao trovismo. Há mais de quarenta anos eles vêm prestando bons serviços: estimulam a intensa produção de trovas; contribuem para o fortalecimento da amizade entre trovadores de todo o Brasil e de Portugal; possibilitam a revelação de novos valores. No entanto, é preciso ter cuidado a fim de que os efeitos não se invertam.

Não se pode permitir de forma alguma o estabelecimento de um divisor de águas – de um lado os ganhadores habituais de concursos e de outro os que jamais (ou raramente) são premiados. Mesmo porque concurso não é a única maneira (e talvez nem seja a mais eficiente) de avaliar poesia ou lá o que seja. Há muitos trovadores que dificilmente aparecem no pódio dos premiados, mas que têm rico acervo de boas trovas. Além disso, a principal característica do trovismo foi sempre a fraternidade, razão pela qual não tem sentido colocar em primeiro plano a disputa de prêmios.

Agrada saber que fulano ou sicrana já receberam dezenas ou centenas de troféus, porém muito mais agrada saber que fulano e sicrana amam a trova tanto quanto nós amamos, e que tal afinidade nos faz irmãos. Se, portanto, algum dia notarmos que os concursos começam a prejudicar a fraternidade, talvez seja melhor acabar com eles, criando novas formas de motivação.

Recordemos as sábias palavras do mestre Reinaldo Moreira de Aguiar: "A trova é um modo franciscano de ser poeta.” Parece que isso resume tudo.

Fonte:
Editorial do Trovia de fevereiro / 2002

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Aparício Fernandes (Trovadores Indígenas)


É sabido que a Trova já existia em Portugal, na época do descobrimento do Brasil. Vai daí, os portugueses trouxeram-na para nossa terra, onde encontrou um meio fertilíssimo para aprimoramento e expansão. Impõe-se, porém, uma pergunta fascinante: existiria a Trova no Brasil, antes de os portugueses aqui chegarem? Não estaria ela integrada à cultura artística dos nossos indígenas? A ser isto verdade, teríamos uma dupla origem da Trova no Brasil, justificando a inegável tendência do nosso povo pela quadrinha setissilábica. A este respeito, o Professor Faris Antônio S. Michaele, residente em Ponta Grossa, no Paraná, escreveu um interessantíssimo estudo intitulado “O Nosso Primeiro Trovador”‖, que foi publicado no n. 128 da revista santista Centro Português, em setembro de 1968. Eis um trecho do referido artigo, que submetemos à apreciação do leitor, sem maiores comentários:

Os nosso primeiros trovadores foram, de fato, os índios, principalmente os tupis-guaranis. É o que nos informam os cronistas, viajantes e missionários do Século XVI (Gabriel Soares de Souza, Fernão Cardim, Ambrósio F. Brandão, Magalhães Gandavo) e confirmam os estudiosos de séculos posteriores, até os dias atuais (Alexandre Rodrigues Ferreira, Couto de Magalhães, Barbosa Rodrigues, Batista Caetano, Batista Siqueira, Villa-Lobos, José Siqueira, Mário de Andrade, etc.), não excluindo o alemão Von Martius, que tanto viajou e sofreu por este ilimitado continente.

Trovas amorosas, folclóricas e até de fundo animista são facilmente encontradas nas obras desses autores dos séculos XIX e XX. Mas o que nos faz pensar um bocado sobre a vivacidade mental do nosso irmão tupi-guarani é a mordacidade, que nada tem de primitiva, das suas composições referentes às agruras da vida, aos contatos com o português (termo geralmente usado para caracterizar os brancos de todos os tipos), ou às contínuas perseguições, massacres e espoliações injustificáveis, num país tão vasto.

De Von Martius todos já conhecem as duas quadrinhas, adaptadas por Joaquim Norberto do seguinte modo:

Não quero mulher que tenha
as pernas bastante finas,
com medo que em mim se enrosquem
como feras viperinas.

Também não quero que tenha
o cabelo assaz comprido,
que em matos de tiririca
achar-me-ia perdido.


Da boca de dois tupi-guaçus, vindos de Aquidauana, Estado de Mato Grosso, ouvimos, há alguns anos, algumas trovas, que vamos reproduzir no original, com a respectiva adaptação ao português, por nós realizada.

São cantadas em nheengatu, ou tupi moderno:

1
Cariua, puxyuéra oikó,
Anhangá opinima ahé;
Tatá opumun i pó,
Tiputy, i iurú popé.

Tradução:
Português é bicho mau,
foi pelo diabo pintado.
Sua mão vomita fogo,
tem boca em lugar errado.

2
Irara ou iané ira,
Iauraeté, capiuàra;
Ma, Caríua piá-puxy,
I mukáua-iucaçára.

Tradução:
Irara comeu o mel,
onça grande, a capivara;
porém é o branco cruel
que a espingarda nos dispara.

3
Caríua, ndê tinguaçú;
Caríua, macaca sáua.
Andirá ce py opitera:
– Ce manioca ndê reú.

Tradução:
Homem branco, nariz grande,
como o macaco, és peludo;
morcego, chupou meu pé,
comeste mandioca e tudo.

4
Macaca tuiué, paá,
Cuiambuca ahé Okuáu;
Amurupi, iané piá,
Mundé çui, nti oiauáu.

Tradução:
Dizem que macaco velho
nunca se deixa enganar;
ao contrário, o coração
nunca cessa de apanhar.


Como estão vendo os leitores, o indígena brasileiro, que produziu a maravilhosa cerâmica de Marajó; que como ninguém conhecia os astros e coisas do firmamento; e que ao branco ensinou mil e uma experiências úteis, até de fundo medicinal, era, igualmente, e é, ainda hoje, estupendo cultor da poesia e, com especialidade, da Trova.

Por isso, sem nenhuma reserva, merece, com os nossos agradecimentos, o título espetacular de o primeiro ou mais antigo trovador da terra de Santa Cruz.

Fonte:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Calazans Alves D’Araújo (1902 - 1976)

Ao ver-te colhendo flores,
tive esse desejo vão:
transformar-me numa flor,
para estar em tua mão.
- - - - - –

É meu peito uma gaiola
vazia, sem passarinho.
Ah! Se eu pudesse, menina,
guardar nele o teu carinho!
- - - - - –

Este nosso velho mundo
já não está prestando mais:
rapaz querendo ser moça…
moça a querer ser rapaz...
- - - - - –

Eu sou como aquele ramo
da roseira, que ficou
muito triste, sem a rosa
que mão perversa arrancou.
- - - - - –

Eu sou seu, você é minha,
somos os dois – galho e flor
juntinhos, amando e rindo,
felizes no nosso amor.
- - - - - –

Invejei aquele feio
e miserável mendigo
que te pediu uma esmola…
(e eu nunca falei contigo!)
- - - - - –

Nasci no Brasil: me orgulho
de ser daqui do Nordeste,
onde as mulheres são lindas
e os homens cabras-da-peste.
- - - - - –

O beijo da nossa linda
morena pernambucana,
é gostoso como o mel
feito da cana-caiana.
- - - - - –

O vento desfolha as flores,
jogando-as no pó do chão.
Fez assim com os meus amores
a cruel ingratidão.
- - - - - –

Quando Ziza por mim passa,
eu me ponho a suplicar:
- Nossa Senhora da Graça
não deixe Ziza casar…
- - - - - –

Quanto mais galopa o tempo,
corre veloz, vai-se embora,
mais meu coração te ama,
busca e quer, muito te adora.
- - - - - –

Que desejo extravagante
este do meu coração:
querer ser o travesseiro
onde dorme Conceição!
- - - - - –

Quem fez o céu tão bonito,
a floresta, o campo, o mar,
não devia ter-me feito
para sofrer e chorar.
- - - - - –

Que tenho sido na vida?
No mundo, que tenho sido?
— Um velho barco perdido
numa enseada esquecida...
- - - - - –

São meus olhos dois mendigos,
dois miseráveis plebeus,
pedindo, ao bater-te à porta,
uma esmola aos olhos teus.
- - - - - –

— Tão longe! — disseste olhando
o céu. Eu disse: Tão perto!...
Falei do céu de teus olhos,
alegrando meu deserto...
- - - - - -

Tu gostas de minhas trovas,
eu gosto do teu olhar.
Foi por causa dos teu olhos
que eu aprendi a trovar.
 - - - - - –

Vendo da mulher o riso
Diz a feroz onça preta:
- Não torço esse meu sorriso
por essa horrível careta.

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Calazans Alves D'Araújo nasceu em 1902 e faleceu em 1976. Residia em Catende/PE. Poeta e trovador. Professor em diversas cidades do Pernambuco. Publicou em 1961 um livro intitulado "Ao Doce Embalo da Rede", trovas e em 1973, “Flauteio do Sabiá”.

Fontes:
– Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva.
– Calazans Alves D’Araújo. Ao doce embalo da rede.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Hermoclydes S. Franco (Oração de São Francisco em Trovas)

Hermoclydes Siqueira Franco
Niterói/RJ, 1929 – 2012, Rio de Janeiro/RJ
_________________
Fazei-me agente Senhor
de Vossa radiosa paz.
Permita que eu leve o AMOR
onde o ÓDIO esteja mais...

Onde estiver a OFENSA
que eu sempre espalhe o PERDÃO...
Onde houver DISCÓRDIA, intensa,
que eu sempre faça a UNIÃO!

Onde DÚVIDA existir,
que eu possa levar a FÉ
e onde o ERRO persistir,
toda a verdade da SÉ...

DESESPERO em ESPERANÇA,
TRISTEZA em pura ALEGRIA,
que eu transforme, com bonança,
as TREVAS em LUZ do dia...

OH! Mestre – Amor Singular –
concedei, seja meu fado
CONSOLO a todos levar,
mais do que ser CONSOLADO!

Que eu consiga COMPREENDER,
mais do que ser COMPREENDIDO.
Possa AMAR, com todo o ser,
muito mais que SER QUERIDO!

Pois DANDO é que se RECEBE
- ao irmão necessitado -
PERDOANDO se percebe
que, também, se é PERDOADO!

Dai-me, Senhor, a esperança,
pela maneira mais terna,
pois MORRENDO é que se alcança
a glória da VIDA eterna!…

Fonte:
Trovas enviadas pelo autor.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Nilton Manoel (Como Fazer Trovas) 3a. Parte, final

www.rainhadapaz.g12.br

TROVAS DEMONSTRATIVAS DA APLICAÇÃO DAS DEZ REGRAS DA METRIFICAÇÃO


Estas trovas foram feitas para demonstrar os diferentes casos de aplicações das dez regras da metrificação. Têm, pois, finalidade didática. Devemos observar em cada uma, pela numeração, aplicação correspondente. O conteúdo não tem relação com as regras, mas tão somente com as formas das trovas.

O fundo está relacionado com as mensagens generalizadas sobre os estudos de Metrificação. Portanto, julguem-nas como utilidade didática e como curiosidade, e não como valor artístico.
(Luiz Otávio - Santos - SP., 26/03/1974).

1ª regra - última tônica

Poderá a força elétrica
de um sábio computador
ensinar contagem métrica
mas não faz um trovador...

2ª regra - pontuação

Pensa em calma! Evita errar,
Injusto é se nos reprovas,
Pois não queremos mudar
o modo de fazer trovas

3ª regra - encontro consonantal

Você pode acreditar
ter a pura convicção
que a ninguém vou obrigar
a ter a minha opinião...

4ª regra - vogal fraca + fraca

Podes crer és muito injusto
e estás longe da verdade:
pois na trova a todo custo
defendo a espontaneidade...

5ª regra - vogal forte + fraca

É uma história bem correta
em tudo o ensino é preciso,
no entanto, só poeta
quer ser gênio de improviso...

6ª regra - junção de três vogais

Esta é uma regra indiscreta,
convenções, mal amparadas,
induzem muito poeta
a convicções enraizados.

7ª regra - ditongos

Para medir nossos versos,
se o ouvido fosse o juiz,
em nossos metros diversos
ninguém poria o nariz...

8ª regra - encontros vocálicos ascendentes

Na trova, soneto ou poema,
em toda parte do mundo
se a Forma é o seu dilema
sua alma é sempre o fundo!

9ª regra - encontros vocálicos descendentes

As dúvidas são pequenas
não sejas tão pessimista,
dá-me a tua ajuda, apenas,
e será bela a conquista

10ª regra - licenças: aféreses, síncopes, apócopes, ectlipses.

É mui// feio criticar(apócope)
/inda que seja um direito (aférese)
pra ser justo, aulas vem dar (síncope)
com o teu plano sem defeito... (ectlípse)

Frase mnemônica para decorar as dez regras de metrificação:
"Tendo paciência e Estudo você versejará tecnicamente direito encontrando estética e lirismo." (T = tônica; p = pontuação; e = encontros consonantais; v = vogal fraca; v = vogal forte; t = três vogais; d = ditongos; e = encontros vocálicos ascendentes; e = encontros vocálicos descendentes; l = licenças poéticas).

Luiz Otávio

Fonte:
http://movimentodasartes.com.br/trovador/pop/pop_01.htm

Lairton Trovão de Andrade (Descontraindo em versos)

01. Destrua a melancolia, pois a vida se renova! Contra a tristeza, Maria, beba chazinho de trova! 02. O plagiário é caricato que no mundo s...